Desafios do Setor Agro
A primeira reunião do Banco Central em 2024 indica que a taxa Selic deve permanecer fixa em 15%. Bruno Lavieri, economista e fundador da 4Intelligence, observa que, embora a inflação atual apresente sinais de alívio, as previsões para os próximos anos, especificamente 2027 a 2029, permanecem acima do centro da meta. Isso revela que a credibilidade do Banco Central ainda está em processo de consolidação. Em termos simples, enquanto não houver confiança de que a inflação se estabilizará em torno de 3%, a taxa de juros precisa ser mantida em patamares elevados. As reduções devem ser consideradas apenas no futuro, e de forma gradual.
O impacto dessa situação na economia real já é palpável. Gustavo Junqueira, colunista da Veja e ex-secretário de Agricultura de São Paulo, destaca que a abrupta mudança na Selic — que saltou de quase 2% para 15% — pegou o setor produtivo de surpresa, especialmente o setor agropecuário. Os juros mais baixos haviam incentivado investimentos, aquisições de terras e uma alavancagem considerável. No entanto, com a queda nos preços das commodities, como a soja, que despencou de aproximadamente R$ 200 para cerca de R$ 130 a saca, o cenário mudou drasticamente. O resultado? Menos caixa disponível, dificuldades para quitar dívidas e vendas forçadas de ativos.
Crédito em Crise
Nesse cenário desafiador, o acesso ao crédito se tornou ainda mais restrito. Junqueira ressalta a mudança de postura do Banco do Brasil, uma instituição tradicionalmente robusta no financiamento do agronegócio, que aparentemente reduziu a renovação de suas linhas de crédito, deixando muitos produtores sem recursos. Embora o efeito macroeconômico possa parecer controlado, no nível micro existe uma “seleção natural”: permanecem os produtores mais capitalizados, enquanto os mais endividados enfrentam dificuldades para continuar operando. Essa situação reflete um necessário pé no freio econômico — essencial para conter a inflação, mas doloroso para aqueles que dependem da produção rural.
