Análise do Cenário Logístico
No contexto atual da economia brasileira, a logística do agronegócio se depara com uma série de desafios a serem superados até 2026. Apesar da estabilidade nos preços de frete e do crescimento contínuo da economia nos últimos três anos, o setor ainda enfrenta obstáculos significativos. O avanço da produção agrícola em 2025 é promissor, mas a dependência do transporte rodoviário, as incertezas jurídicas e a Reforma Tributária colocam em risco o desempenho logístico.
Esses temas foram amplamente discutidos na palestra “Café da Manhã com Logística”, promovida pelo ESALQ-LOG, um grupo de pesquisa e extensão da Escola Superior de Agricultura da USP, realizada em Piracicaba, São Paulo. Durante o evento, especialistas do setor abordaram as expectativas e possíveis cenários para o futuro próximo.
Impactos do Crescimento Econômico no Agronegócio
O economista Everton Costa, do ESALQ-LOG, ressaltou que o crescimento previsto de 2,3% para a economia brasileira em 2025 deve impactar positivamente o agronegócio. “Em 2024, o PIB do agronegócio cresceu apenas 1,8%, mas para 2025, as expectativas são otimistas, principalmente devido à previsão de um aumento superior a 16% na produção de grãos”, explicou o pesquisador.
De acordo com dados do IBGE, a safra de grãos do ano passado atingiu a marca recorde de 346,1 milhões de toneladas, um marco histórico, já que até 2022 o Brasil nunca havia ultrapassado 300 milhões de toneladas. Contudo, mesmo diante desse crescimento, Costa alertou para sinais de uma possível desaceleração econômica nos próximos anos.
Custo de Transporte e Desafios no Frete
Outro aspecto abordado no evento foram os custos de transporte e as tarifas de frete ao longo do último ano. Os pesquisadores focaram no transporte de grãos em Mato Grosso, onde os custos de transporte aumentaram 93% entre 2017 e 2025, enquanto os valores do frete subiram apenas 40% no mesmo período. O estado é conhecido por sua colheita antecipada, com cerca de 25% da área colhida em janeiro e a expectativa de chegar a 70% até meados de fevereiro, o que deve causar um aumento de até 20% nos custos de frete.
Na área sucroenergética, o pesquisador Fernando Pauli de Bastiani destacou uma queda de 35% no preço de exportação do açúcar nos últimos 12 meses. Para o ciclo 2026/2027, ele prevê uma mudança nas usinas, junto com uma redução no preço da gasolina, o que poderia impactar também o preço do etanol no início da safra.
Fertilizantes: Desafios e Oportunidades
Em relação aos fertilizantes, o índice de Poder de Compra de Fertilizantes (IPCF) apresentou aumento em 2025, mas a pesquisadora Sarah Barbosa Tosi alertou que as importações cresceram cerca de 2%, impulsionadas pela demanda antecipada e pela valorização do dólar. É importante notar a interrelação entre os preços de fertilizantes e fretes de grãos, com o frete de fertilizantes superando o de grãos em outubro de 2025, devido à alta demanda.
Reforma Tributária e Piso Mínimo do Frete
O professor Thiago Guilherme Péra, coordenador do ESALQ-LOG, avaliou as implicações da Reforma Tributária e as novas regulamentações relacionadas ao piso mínimo do frete rodoviário. A recente atualização da Resolução ANTT nº 6.076/2026, que revisa os valores do frete mínimo, deve intensificar as discussões sobre a logística no setor. Segundo dados da pesquisa, o número de infrações por descumprimento da contratação do piso mínimo subiu de 20,1 mil em 2019 para 66,6 mil em 2025, com tendência de crescimento em 2026.
Péra classificou o cenário como desafiador, reforçando a necessidade de adequação dos contratos de frete. “As indústrias precisam se tornar mais eficientes em logística para enfrentar essas novas exigências”, afirmou. Ele sugeriu a exploração de contratos multimodais e a possibilidade de manter frota própria como alternativas para aumentar a competitividade e reduzir os custos logísticos, respeitando a legislação vigente.
Essas considerações abrem espaço para novas estratégias e oportunidades no agronegócio, permitindo que o setor se adapte às mudanças e desafios que se aproximam.
