Explorando o Carnaval como Política Pública Estrutural
No dia 6 de outubro, o Ministério da Cultura (MinC) iniciou no Rio de Janeiro uma missão internacional visando aprofundar a compreensão do Carnaval como uma política pública essencial. O enfoque da missão é investigar as interseções entre Carnaval, economia criativa e valor público. A agenda inaugural contou com uma reunião na Prefeitura do Rio, reunindo a economista Mariana Mazzucato, uma referência mundial em estudos sobre valor público e políticas orientadas por missões, além de gestores das áreas de cultura, economia e planejamento urbano.
Durante o encontro, Mazzucato enfatizou que, em diversos níveis de governo, ainda existem desafios significativos na distinção entre gastos e investimentos, principalmente no setor cultural. Para ela, é crucial que as políticas culturais sejam vistas como investimentos estratégicos, pois prometem retornos duradouros para a economia e a sociedade. Segundo Mazzucato, “O Carnaval exemplifica como a cultura deve ser considerada um investimento. Ele não é um custo, mas uma ampliação das capacidades produtivas, um fortalecimento do bem-estar coletivo e um gerador de valor público ao longo do tempo. O custo de não investir é muito mais elevado do que o custo de agir”.
Nesse sentido, o Carnaval foi apresentado a Mazzucato como um verdadeiro laboratório de políticas públicas que junta imaginação coletiva, desenvolvimento econômico e avaliação de impactos. O evento não apenas movimenta financeiramente, mas também promove pertencimento, formação cultural e fortalecimento comunitário.
Participaram da reunião a secretária de Economia Criativa do MinC, Cláudia Leitão; a secretária de Articulação Federativa e Comitês de Cultura do MinC, Roberta Martins; e o secretário municipal de Cultura do Rio de Janeiro, Lucas Padilha, além de equipes técnicas desses setores.
A perspectiva apresentada por Lucas Padilha destaca a necessidade de um entendimento mais profundo sobre como o Carnaval se insere nas políticas públicas. “Quando olhamos para o Carnaval como uma política pública, falamos de planejamento e integração entre diversas áreas do governo. Trata-se de um sistema produtivo que opera o ano inteiro e que precisa ser adequadamente compreendido e fortalecido pelo Estado”, afirmou.
A Cooperação entre MinC e IIPP
A missão é um resultado da colaboração entre o MinC e o Institute for Innovation and Public Purpose (IIPP), da University College London (UCL), onde Mazzucato é diretora. O projeto também conta com a cooperação técnica da UNESCO e abrange atividades em várias cidades, incluindo Brasília e Salvador.
No cerne do debate, destaca-se a singularidade da economia criativa brasileira, que se estrutura em redes comunitárias e colaborativas ao longo do ano, e não apenas em cadeias industriais tradicionais. Cláudia Leitão, secretária de Economia Criativa do MinC, ressaltou que esse modelo demanda políticas públicas específicas que reconheçam sua complexidade, afirmando: “Quando falamos de economia criativa, não estamos apenas nos referindo à indústria criativa, mas a uma economia que é profundamente territorializada, funcionando por meio de diferentes canais como samba, música popular e festas em geral”.
A reunião também destacou que o investimento público no Carnaval é simultaneamente um investimento cultural, social e econômico. Mobilizando escolas de samba, blocos de carnaval e rodas de samba, a festa contribui para a circulação de renda e o fortalecimento da comunidade. A secretária Roberta Martins complementou, dizendo que esse investimento deve ser visto como parte de uma estratégia pública mais ampla que traz impactos reais para a cidade, enfatizando que “o samba é um fator de mobilidade social, e esses aportes representam uma reparação histórica”.
Desafios da Informalidade na Economia Criativa
Um dos principais desafios discutidos na reunião foi o de mensurar a economia criativa e o Carnaval em um país que apresenta altos índices de informalidade. Gestores municipais compartilharam dados impactantes sobre a economia durante o Carnaval, ao mesmo tempo em que reconheceram que muitos trabalhos e produções culturais ainda não aparecem nas estatísticas oficiais. Mazzucato sugeriu que o contexto brasileiro oferece lições valiosas para o cenário internacional ao reconhecer o Carnaval não apenas como um evento, mas como uma política pública que conecta economia, território e bem-estar social.
“O Carnaval demonstra como a cultura pode ser uma infraestrutura que organiza trabalho, constrói capacidades, fortalece comunidades e gera valor público ao longo do tempo. Quando o Estado reconhece isso, ele não apenas reage ao evento, mas desenvolve políticas intencionais para apoiar esse ecossistema”, afirmou a economista.
Próximos Passos da Missão
A missão que passou por Rio de Janeiro, Brasília e Salvador terá um marco oficial com a conferência intitulada “O valor público das artes e da cultura”, programada para os dias 9 e 10 de fevereiro. Essa iniciativa faz parte dos esforços do Governo do Brasil em reposicionar a cultura como um eixo central para o desenvolvimento nacional e o fortalecimento das capacidades públicas.
Quem é Mariana Mazzucato?
Mariana Mazzucato é uma respeitada economista, com PhD e título de Comandante da Ordem do Império Britânico (CBE). Ela é professora na UCL, onde lidera o IIPP. Seus livros, como “O Estado Empreendedor” e “Missão Economia: Um Guia Inovador para Mudar o Capitalismo”, são amplamente reconhecidos e discutidos em todo o mundo.
