Mudanças Fiscais Prometem Alterar Dinâmica de Custos no Agronegócio
A reforma tributária em curso no Brasil, uma das transformações mais significativas no sistema fiscal do país, tende a simplificar a forma como os impostos são cobrados sobre insumos, produção e circulação de mercadorias. Contudo, pequenos e médios produtores do setor agroindustrial correm o risco de enfrentar um aumento nos custos de produção caso a compensação de créditos tributários não seja ajustada de forma adequada.
A transição para o novo modelo de tributação, que introduz o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e o CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), promete reduzir a burocracia e as disputas fiscais, criando um IVA dual com uma alíquota padrão estimada de cerca de 28%. Essa mudança tem como objetivo proporcionar maior previsibilidade para investimentos, especialmente voltados para bioinsumos e soluções sustentáveis, como microrganismos e biofertilizantes, que estão ganhando destaque na agricultura regenerativa.
De acordo com Fellipe Parreira, do Grupo GIROAgro, as iniciativas em prol dos bioinsumos recebem apoio de políticas públicas que incentivam práticas agrícolas sustentáveis. Programas como o Plano Safra têm destinado recursos a produtores que adotam tecnologias com menor impacto ambiental, além de impulsionarem pesquisas e o desenvolvimento de novas soluções biológicas através de esforços estaduais e federais.
Impactos Diretos na Tributação dos Fertilizantes
Antes da reforma, fertilizantes beneficavam-se de isenções ou desonerações parciais sob a forma do Convênio ICMS 100/97, que zerava ou reduzia a carga tributária sobre esses insumos. Com a nova legislação, os fertilizantes sofrerão uma alíquota reduzida equivalente a 60% da taxa padrão, eliminando a chamada “tributação zero” que anteriormente os favorecia.
Estudos realizados pela FGV indicam que a participação dos fertilizantes na carga tributária do agronegócio pode aumentar de aproximadamente 5% para até 28% do total atual. Isso significa que, considerando que os insumos representam cerca de 25% do custo de produção de culturas como soja e milho, a reforma pode encarecer esses produtos em até 3 pontos percentuais. Embora os produtores possam recuperar créditos, eles enfrentarão desafios no fluxo de caixa durante a transição, que se estende até 2032; pequenos produtores continuarão isentos.
Desafios e Oportunidades no Setor de Bioinsumos
As mudanças na tributação dos insumos químicos e biológicos têm potencial para pressionar ainda mais as margens de lucro, já comprometidas pela sazonalidade e riscos climáticos que o agronegócio enfrenta. Entretanto, essa reforma também apresenta uma oportunidade de alinhar o mercado brasileiro a padrões internacionais, favorecendo produtos de maior valor agregado, como os bioinsumos.
Empresas do setor enfatizam a necessidade de um diálogo constante com o governo. Se a reforma for implementada de maneira eficiente, pode modernizar o agronegócio brasileiro. Por outro lado, uma execução inadequada pode encarecer insumos e comprometer a sustentabilidade econômica do setor.
Perspectivas da Safra e Importância do Câmbio
Conforme relatórios do Itaú BBA, a produção de soja no Brasil deve alcançar 180 milhões de toneladas, impulsionada por boas condições climáticas e resultados acima da média em estados como Mato Grosso e Paraná. A Argentina também deve apresentar uma colheita favorável, aumentando a oferta global e limitando a alta nos preços da soja na Bolsa de Chicago.
Apesar da forte demanda externa registrada em janeiro, com embarques 129% superiores ao mesmo mês de 2025, a tendência é de queda nos prêmios de exportação à medida que a oferta disponível cresce. A valorização do Real tem pressionado os preços internos, colocando o valor da soja em Mato Grosso abaixo de R$ 100 por saca. Segundo simulações, um câmbio em R$ 4,50/USD poderia levar esse preço para menos de R$ 90, evidenciando a influência da taxa de câmbio na rentabilidade dos produtores.
Desafios Logísticos e Expectativas para o Futuro
Com a safra recorde, os custos de transporte rodoviário aumentaram consideravelmente, afetando as margens dos produtores. A comercialização da safra 2025/26 ainda está atrasada, com cerca de dois terços da produção não vendida. Muitos produtores estão retendo a soja à espera de melhores preços, mesmo diante da possibilidade de novos recuos nas cotações.
Os produtores devem estar atentos a cinco pontos cruciais: o ritmo da comercialização, a possível queda nos prêmios de exportação, o aumento dos custos logísticos, as mudanças nas regras da EPA nos EUA e o comportamento das compras chinesas, que têm impacto direto nas decisões de plantio nos EUA. O Itaú BBA destaca que a recente valorização do Real pode se mostrar limitada por fatores políticos internos, especialmente com a aproximação das eleições de 2026, o que deverá aumentar a volatilidade do mercado.
