Razões Religiosas e Culturais para a Não Celebração do Natal
No universo das tradições natalinas, algumas vozes se destacam, como a da médica Flávia Raquel Teodoro Rotiroti, membro da Congregação Cristã no Brasil, e da babá Elaine Cristina dos Santos Barboza, que é Testemunha de Jeová. Para ambas, o motivo central para a ausência do clima natalino é de ordem religiosa.
Flávia explica: “Algumas denominações evangélicas não comemoram o Natal. A Bíblia não menciona o dia 25 de dezembro como o nascimento de Jesus, e a escolha dessa data não tem respaldo histórico. Para muitos, é uma celebração comercial carregada de símbolos, como o Papai Noel”. Desde a infância, Flávia cresceu sem celebrar o Natal devido à sua formação evangélica. Por sua vez, Elaine também deixou de comemorar a data há 28 anos, quando aprofundou seus estudos bíblicos. Ela reflete: “Antes, eu celebrava com a família, mas ao estudar a Bíblia percebi que essa festa não está ligada ao nascimento de Cristo. A ordem que recebemos é para lembrar de sua morte, e não de seu nascimento”.
O sociólogo Clemir Fernandes, diretor adjunto do Instituto de Estudos da Religião (Iser), ressalta que o Natal não sempre teve a proeminência que possui no cristianismo atual. Enquanto a Páscoa, que remete à Paixão de Cristo, é celebrada desde o primeiro século, o Natal começou a ganhar registros históricos apenas no século IV. “A celebração foi se formando ao longo do período medieval; portanto, não é surpreendente que diversos grupos cristãos optem por não comemorá-la oficialmente. Isso não implica que não realizem festas em família”, observa Fernandes.
Como as Famílias Reinventam o Natal
Para aqueles que não celebram datas tradicionais, um desafio comum é explicar essa escolha aos filhos. Elaine relata que seus filhos, agora adultos, cresceram sem a ansiedade típica do Natal, pois foram educados em sua religião. A neta, no entanto, celebra com os avós que comemoram a data. “Nós nos reunimos frequentemente ao longo do ano para realizar brincadeiras e festas, alugamos salões e chácaras. As crianças se divertem bastante, então não sentem falta do Natal”, compartilha Elaine.
Flávia também não impõe restrições aos filhos, que admiram as luzes e as decorações de Natal presentes nas casas e nas ruas. “Se eles perguntarem sobre o Natal, explico que nossa religião não o celebra. Mas isso não me impede de fazer uma decoração. Eu sentia falta disso na infância. Os presentes de fim de ano já estão comprados, e se eles tiverem mais perguntas, decidiremos juntos, mas o fundamental é a explicação”, esclarece a mãe.
Elaine, por sua vez, acha a ideia de dar presentes fora de uma data comercial ainda mais agradável. “Ganhar um presente inesperado é uma experiência muito mais divertida”, acrescenta.
Desinteresse Além da Religião
Para a enfermeira Nathalia Bastos, o desinteresse pelo Natal não é pautado pela religião, mas por uma aversão pessoal à data. “Não vejo sinceridade em comemorar o nascimento de alguém que foi crucificado e continua a ser crucificado diariamente”, desabafa Nathalia. Ela acredita que o Natal revela hipocrisias. “Muitas vezes fui a criticada. Poderíamos começar a vivenciar verdadeiramente o que o aniversariante ensinou: amar o próximo, sem julgamentos”, afirma.
Fernandes ressalta que, gradualmente, o Natal tem se distanciado de seu significado religioso original. “Mesmo entre os cristãos, a data se transformou em uma celebração de comida, bebida, presentes e encontros familiares, trazendo alegrias e também conflitos”, conclui.
Significados Diversos entre Culturas Indígenas e Outros Grupos
Entre algumas culturas indígenas, o fim de ano ganha significados únicos. O professor e escritor indígena Yaguarê Yamã, em uma de suas postagens nas redes sociais, menciona o Çuriçawara, que significa “o dia da felicidade” em língua geral. Essa tradição ancestral celebra a alegria, a amizade e a comunhão entre os humanos e os espíritos da floresta. “Os mais velhos dizem que a origem é desconhecida. O que se sabe é que os espíritos da felicidade se reúnem para festejar com os homens”, escreveu Yamã em seu Instagram.
Na narrativa indígena, a figura do ‘bom velhinho’ é representada por duas entidades: a vovó Hary e seu companheiro Karimã. “Salve o dia da felicidade, o Çuriçawara!”, celebrou Yamã.
O Natal ao Redor do Mundo
Fora do cristianismo, o Natal também não é uma data de destaque em várias culturas. Em países islâmicos como Indonésia, Paquistão e Egito, Jesus é reconhecido como profeta, mas não como uma figura divina. Os muçulmanos têm como principais celebrações o Eid al-Fitr e o Eid al-Adha. No budismo, que prevalece em países como China e Japão, Jesus é visto como uma figura sábia, mas seu nascimento não é celebrado, sendo a data mais relevante o Vesak. Para os judeus, Jesus existiu, mas não é reconhecido como o Messias; a principal festa dessa época é o Hanukah, que relembra a resistência do povo judeu.
No hinduísmo, com raízes principalmente na Índia, as festividades estão ligadas a diversas divindades e energias, e o Natal não faz parte dessa tradição, assim como no taoísmo e no xintoísmo, onde o 25 de dezembro é, na maioria das vezes, uma data de caráter comercial.
Para Clemir Fernandes, essa diversidade cultural demonstra que, embora o cristianismo tenha um impacto significativo, ele não é universal. “Existem diversas tradições religiosas, cada uma com seu próprio calendário, e para várias delas, o Natal é uma data estranha ou até desconhecida”, conclui.
