O Que Há de Novo na Cajucultura
O Brasil, em 2024, alcançou um marco significativo na produção de castanha de caju, colhendo impressionantes 161.014 toneladas, o que representa a maior safra desde 2018, segundo o IBGE. Esse aumento de 38% em relação ao ano anterior evidencia a importância estratégica da cajucultura para a economia nordestina. Entretanto, o setor ainda opera em grande parte sob um modelo semiextrativista, caracterizado por baixa produtividade e elevada variabilidade genética, o que limita os ganhos de escala. Para enfrentar esses desafios, a Embrapa Agroindústria Tropical lançou em dezembro o clone BRS 805, com foco em modernizar os pomares, promover a sustentabilidade e aumentar a rentabilidade.
Ceará em Destaque na Produção de Caju
O Ceará se consolidou como o maior produtor do Brasil, contribuindo com 101.930 toneladas da produção total em 2024, um aumento de 61% em relação ao ano anterior. O Piauí também obteve resultados positivos, registrando 26.172 toneladas, correspondente a um crescimento de 25%. O Rio Grande do Norte manteve-se estável, com uma produção de cerca de 21 mil toneladas. No contexto nacional, a produtividade média subiu de 271 para 358 kg/ha, significando uma melhora de 30%, embora esse dado ainda esteja aquém do que especialistas consideram um padrão ideal para a cajucultura de alta performance.
Clone BRS 805: Inovação e Desempenho
Desenvolvido a partir de um projeto de pesquisa iniciado nos anos 90, o clone BRS 805 é fruto de experimentos realizados em Pio IX (PI) e posteriormente testados no Campo Experimental de Pacajus (CE). A planta PRO 805/4, uma das filhas clonadas, apresentou resultados promissores, especialmente em termos de produtividade — alcançando uma média de 1.800 kg/ha de castanhas entre o 5º e o 7º ano, o que é o dobro da cultivar CCP 76, atualmente a mais cultivada no Brasil. Além disso, a produção de pedúnculo atingiu 23,8 toneladas por hectare, superando igualmente a cultivar referência.
Benefícios do BRS 805: Eficiência e Sustentabilidade
O BRS 805 destaca-se ainda por suas características de resistência a diversas doenças, como mofo-preto, antracnose e septoria, que frequentemente comprometem a produtividade em sistemas convencionais. A planta também é mais tolerante ao oídio, considerado um dos principais problemas para a cajucultura. De acordo com o pesquisador Marlon Valentim, essas qualidades possibilitam uma diminuição na utilização de defensivos, reduzindo os custos de produção e aumentando a segurança alimentar. O clone será disponibilizado inicialmente para viveiristas registrados no Renasem, com um edital público programado para o dia 12 de janeiro de 2026.
Características do Novo Clone e Suas Aplicações
As castanhas do BRS 805 possuem uma massa média de 10 g e amêndoas classificadas como tipo LW ou W210, um padrão apreciado pela indústria de processamento, com rendimento industrial médio de 23,2%. Além disso, o pedúnculo apresenta coloração vermelha intensa e formato piramidal, aumentando seu apelo visual e apresentando um teor de vitamina C cinco vezes superior ao da laranja, destacando-se para o uso industrial.
Cajueiro no Semiárido: Uma Cultura Estratégica
O cajueiro se destaca como uma das poucas frutíferas adaptadas a condições de baixa precipitação, entre 600 e 800 mm anuais, permitindo sua produção mesmo em anos de seca, sem a necessidade de irrigação. Clones como BRS 805, BRS 226 e Embrapa 51 foram desenvolvidos para solos arenosos e ácidos, demonstrando resistência hídrica durante a seca da última década, assegurando uma produção estável em áreas com elevado déficit hídrico. José Roberto Vieira, chefe de Pesquisa da Embrapa Agroindústria Tropical, enfatiza que a cajucultura está em um ponto crucial: “Temos a opção de manter um modelo de baixa produtividade ou migrar para um sistema tecnificado, com rendimentos superiores a 1.500 kg/ha e melhor aproveitamento do pedúnculo.”
Diversificação como Estratégia de Segurança Fitossanitária
O lançamento do BRS 805 também reforça a orientação da Embrapa de diversificar os pomares, o que diminui o impacto de possíveis novas pragas e doenças. O pesquisador Dheyne Melo, responsável pelo desenvolvimento do clone, ressalta que “o produtor que diversifica tem acesso a materiais mais tolerantes e evita perdas significativas caso um novo patógeno entre na área.” Apesar da popularidade do clone CCP 76, que apresenta alta produtividade para o pedúnculo, suas limitações quanto à resistência ao oídio justificam a necessidade de uma transição gradual para clones mais tecnificados.
Com mais de 95% da produção nacional de castanha-de-caju concentrada no Nordeste, onde pequenos e médios produtores têm forte presença, a cajucultura se mostra essencial para a formação de uma classe média rural no semiárido. Em 2024, municípios como Bela Cruz, Beberibe, Ocara, Cascavel e Aracati destacaram-se na produção, especialmente nas áreas onde o clone BRS 805 foi bem avaliado.
*Com informações da Embrapa*
