Javier Cercas e a Complexa Relação com a Fé
O recente lançamento de “O louco de Deus no fim do mundo” no Brasil, uma obra que conquistou o Prêmio do Livro Europeu, provoca reflexões sobre a relação entre a fé e a literatura. O autor, Javier Cercas, que se descreve como ateu e anticlerical, explora sua trajetória ao lado do Papa Francisco, criando um diálogo profundo entre sua visão crítica da religião e a busca por sentido na vida. Cercas, com sua narrativa envolvente, apresenta o Papa argentino como um personagem multifacetado: um homem de paradoxos, que vive entre a espiritualidade e a realidade cotidiana.
Durante a conversa com o GLOBO, Cercas revelou que sua relação com a fé foi marcada por uma fobia justificada, resultado de séculos de uma Igreja que, a seu ver, se aliou a regimes opressores. “No entanto, eu simpatizo com o cristianismo”, afirma ele, ressaltando que Cristo era um rebelde social que desafiou normas de sua época. A obra não apenas narra sua experiência, mas convida o leitor a refletir sobre a luta interna do autor em relação à fé, ao afirmar que a literatura, como a religião, é uma busca constante por respostas.
Outro lançamento recente de Cercas no Brasil, “Independência”, que faz parte da trilogia “Terra Alta”, destaca a figura de Melchor Marín, um policial ficcional que enfrenta dilemas éticos em uma Barcelona contemporânea, marcada por escândalos de poder e chantagens. Com esse enredo, o autor expõe críticas à corrupção e à hipocrisia na política, trazendo à tona uma discussão necessária sobre a moralidade em tempos difíceis.
A Literatura como Transcendência
Quando questionado sobre a potencial substituição da fé pela literatura, Cercas reflete: “A literatura pode e não pode substituir a religião. Enquanto a religião oferece respostas, a literatura transforma a pergunta em sua própria resposta”. Ele acredita que o ato de escrever é uma forma de transcendência que permite que autores como Shakespeare e Cervantes vivam além de suas vidas, criando algo que já não existia.
O autor também discorre sobre o heroísmo, comparando as ações de Francisco a missionários que, segundo ele, se aproximam de Cristo. Cercas destaca que Francisco, com suas contradições e ambições, lutou para se tornar o melhor Bergoglio possível, mostrando que a luta interna é uma característica humana.
Uma Análise Crítica do Nacionalismo
Em sua trilogia policial, Cercas transfere seu foco do passado ao presente, motivado pela crise da Catalunha em 2017. Ele descreve essa experiência como dolorosa, mas também catártica. “As experiências ruins são o melhor combustível da literatura. Escritores são alquimistas, transformando dor em beleza e sentido”, observa o autor. Esta mudança de perspectiva não apenas enriquece sua narrativa, mas também destaca a importância da literatura como um espaço de crítica social e reflexões sobre a realidade.
Embora a posição de Cercas contra a independência tenha gerado controvérsias e afetado sua imagem, ele ressalta que o trabalho de um escritor envolve riscos. “Um covarde não pode ser escritor. O romancista e o cidadão convivem em mim, e é melhor que nenhum deles vença”, afirma, enfatizando a dualidade que permeia sua criação literária.
O Papel da Literatura na Justiça e na Crítica Social
A trilogia não só aborda questões de justiça, mas também critica o nacionalismo, que Cercas considera o “último refúgio do canalha”. Ele alerta para os perigos do nacionalismo moderno, que muitas vezes distorce os conceitos de pátria e pertencimento. Para ele, a verdadeira pátria deve ser um espaço pessoal e afetivo, onde se encontra família e amigos.
Com suas obras, Javier Cercas não apenas narra histórias, mas provoca reflexões profundas sobre a condição humana, a busca por identidade e a complexidade das relações sociais. Seus livros se tornam, assim, uma ferramenta poderosa para questionar e entender o mundo contemporâneo, incentivando os leitores a explorar suas próprias crenças e experiências de vida.
