Impactos no Agronegócio
O recente acordo entre o Mercosul e a União Europeia promete influenciar de forma significativa a produção no Brasil, favorecendo quase todos os setores do agronegócio, enquanto algumas indústrias poderão enfrentar desafios. Essa é uma das principais conclusões do estudo “Avaliação dos impactos do acordo de livre comércio Mercosul-UE”, elaborado por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entre eles Fernando José da Silva Paiva Ribeiro, Admir Antonio Betarelli Junior e Weslem Rodrigues Faria.
Os dados indicam que o agronegócio brasileiro pode ter um aumento na produção de cerca de 2%, o que representa aproximadamente US$ 11 bilhões ao longo de 16 anos. Os principais beneficiados serão os setores de carnes suínas e de aves, outros produtos alimentares (como pescado e preparados), óleos e gorduras vegetais, além da pecuária, que inclui o gado. Surpreendentemente, a carne bovina e o açúcar não devem ter grandes aumentos na produção, uma vez que as cotas adicionais de exportação não trarão significativas mudanças para esses produtos. A razão? As exportações para a União Europeia não representam uma fração substancial do total exportado pelo Brasil.
Reações do Setor
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) corroborou essa análise em nota, destacando que, especificamente para a carne de frango, o acordo não mudará o sistema de cotas que já está em vigor entre Brasil e UE. O que realmente muda é a introdução de um novo contingente tarifário, que estabelece 180 mil toneladas anuais isentas de tarifas, a ser dividido entre os países do bloco. Este contingente será composto por 50% de produtos com osso e 50% de produtos sem osso, com uma implementação gradual em seis etapas ao longo de seis anos.
No que diz respeito à carne suína, a novidade é a criação de um contingente tarifário preferencial específico para o Mercosul, algo inédito até então. A cota total prevista é de 25 mil toneladas anuais, com uma tarifa reduzida de 83 euros por tonelada, o que representa uma queda considerável em relação à tarifa aplicada fora da cota. Assim como o frango, a implantação dessa cota também ocorrerá em seis fases anuais, permitindo um crescimento gradual até atingir o volume máximo estipulado.
Impactos na Indústria de Transformação
Ao analisar os efeitos do acordo na indústria de transformação, os pesquisadores do Ipea notaram uma leve variação positiva na produção total, com ganhos na ordem de US$ 500 milhões. No entanto, alguns setores, como veículos, metais ferrosos, vestuário, produtos farmacêuticos e eletrônicos, poderão sofrer quedas. Por outro lado, setores como calçados, celulose, papel e artefatos de couro estão entre os que devem se beneficiar. O estudo destaca que o acordo permitirá que o Brasil amplie suas vendas à UE, desbancando fornecedores de outras regiões do mundo.
A análise do comércio exterior revela que o acordo não apenas criará novas oportunidades de comércio, mas também poderá desviar o fluxo comercial. Espera-se um aumento de 22,6% nas exportações brasileiras para a União Europeia, totalizando cerca de US$ 10,2 bilhões. Entretanto, essa elevação virá acompanhada de uma redução de 3,3% nas exportações para outros países do Mercosul e de 0,5% para o restante do mundo. O impacto nas importações do Brasil também é significativo: um aumento de 72% nas compras provenientes da UE, enquanto as aquisições de produtos de outros países do mundo devem cair em 11%.
