Desvendando Guimarães Rosa: Além do ‘Menino do Mato’
A nova biografia de Guimarães Rosa, escrita por Leonencio Nossa, apresenta uma perspectiva inovadora sobre a vida e a obra do autor de ‘Grande Sertão: Veredas’. O livro questiona a imagem amplamente disseminada de Rosa como o “menino do mato”, uma descrição que o poeta João Cabral de Melo Neto usou em uma de suas entrevistas. Na verdade, Rosa veio de uma família que, embora tivesse laços com a pecuária, não vivia mais desse ramo quando ele nasceu. A sua cidade natal, Cordisburgo, era um importante ponto de confluências, onde viajantes, mercadorias e ideias se cruzavam, formando um ambiente propício para os primeiros passos do jovem escritor.
Esse contexto híbrido, entre o rural e o urbano, é fundamental para entender a originalidade de sua obra, que não se encaixa perfeitamente nas categorias do regionalismo tradicional ou na literatura urbana moderna. “O sertão” na produção de Rosa é, de certa forma, um conceito que encobre a complexidade de sua vida em Cordisburgo, que já não era um Brasil puramente rural, mas um lugar em transição. Ele cresceu em um lar onde várias revistas estrangeiras eram lidas, o que o conectava ao restante do mundo, inclusive à cidade de Belo Horizonte, repleta de informações e novidades.
A Imagem do Homem Rural que Não Se Confirma
Contrariando a expectativa de que um autor tão associado ao universo rural seria um homem “do lombo do cavalo”, Rosa também surpreendeu. Em uma reportagem de 1947, Mariano Valério, um de seus contemporâneos, expressou sua surpresa ao ver fotos de Rosa montado, descrevendo-o como alguém que “montava de mal a mal”, segurando a sela com medo de cair. Essa desconexão entre a imagem popular do autor e sua verdadeira vivência ressalta o dinamismo do sertão apresentado em sua literatura, que possui suas próprias interações sociais, políticas e econômicas.
Segundo Nossa, Rosa não se limitou a um radicalismo linguístico como o de James Joyce; em vez disso, sua originalidade reside em sua busca por integrar as oralidades brasileiras. Ele procurou incluir não apenas elementos do português sertanejo, mas também palavras de origem africana e indígena, assim como sons da fauna local, criando uma língua única e rica que reflete a complexidade do mundo que desejava retratar.
A Ancestralidade e Sua Influência na Obra
O biógrafo também traz à tona a figura pouco discutida de Graciana Teixeira Lomba, a bisavó de Rosa, que provavelmente foi ex-escravizada. Graciana viveu um amor proibido com Francisco de Assis Guimarães, que se casou com uma mulher branca por pressão familiar. A ancestralidade africana de Rosa, frequentemente ignorada nos estudos, é um aspecto que Nossa destaca como crucial para entender a formação do autor e sua percepção das mulheres negras em sua obra.
Durante a vida de Rosa, Graciana foi lembrada pela família como uma figura quase divina, mencionada em momentos de crise. Em seu pronunciamento na Academia Brasileira de Letras, ele homenageou suas bisavós, a branca e a negra, mostrando a importância dessa herança em sua narrativa. “Graciana não é só uma lembrança da infância, mas uma presença constante na vida de Rosa”, afirma Nossa, evidenciando como a influência feminina se manifesta em várias referências na obra do autor.
Compromissos e Coragem em Tempos Difíceis
A trajetória diplomática de Rosa o colocou em situações de tensão política internacional, especialmente durante sua passagem pela Alemanha nazista. Suas cartas com ironias dirigidas a Hitler chamaram a atenção da polícia secreta do regime, que o monitorava de perto. Com humor, ele escreveu sobre a superioridade da cultura brasileira em comparação com a música oficial do regime: “Se o Hitler provasse veria que há coisa melhor do que ‘Die Wacht am Rhein’”.
Além disso, Rosa e sua parceira, Aracy de Carvalho, se envolveram na ajuda a judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Enquanto Aracy se arriscava abrigando refugiados, Rosa, embora cauteloso, assinou vistos que permitiam a saída de judeus da Alemanha, colaborando em ações que podiam comprometer sua carreira diplomática. “Rosa realizava atos de rebeldia que o colocavam em risco”, menciona Nossa, ressaltando que sua obra reflete um engajamento social que vai além da simples palavra escrita.
A Reação da Crítica e o Refúgio no GLOBO
No panorama cultural da época, Guimarães Rosa enfrentou muitas críticas. O Jornal do Brasil, sob a influência de poetas concretos, atacou sua obra, questionando sua relevância. “Acredita em Guimarães Rosa?”, perguntavam, buscando descreditar o autor em conversas com colegas escritores. “No ambiente cultural do Rio, não havia espaço para ele”, analisa Nossa, apontando a frustração de Rosa em saber que sua inovação não era devidamente reconhecida.
Durante esse período conturbado, Rosa encontrou um espaço no caderno de cultura do GLOBO, onde publicou sua coluna “Guimarães Rosa conta…”, entre janeiro e agosto de 1961. Através deste canal, ele conseguiu divulgar alguns de seus contos mais icônicos, como “A terceira margem do rio”, que mais tarde seriam compilados no livro “Primeiras estórias”. “O GLOBO foi um alicerce em sua trajetória, permitindo que continuasse a publicar e ser lido em um momento em que muitos tentavam deixá-lo no passado”, conclui Nossa, sublinhando a importância desse veículo na consagração do autor mineiro.
