A História dos Blocos de Rua
O carnaval carioca celebra em 2024 um marco significativo: os blocos de rua completam 120 anos de existência. Essa tradição, que se tornou um ícone da folia brasileira, tem suas raízes fincadas em um contexto político específico. Em 1906, durante a eleição presidencial, Afonso Pena foi eleito com uma impressionante margem de quase 98% dos votos, e sua coligação, intitulada ‘O Bloco’, rapidamente cativou a população. A partir desse momento, os blocos carnavalescos começaram a surgir, influenciando a cultura popular de maneira profunda. Essa narrativa é detalhada no livro ‘Os blocos do carnaval carioca: o que são, o que dizem que são, o que podem ser e o que não são mais, pois já foram’, escrito pelo pesquisador Tiago Ribeiro.
Quando Tiago Ribeiro buscou a origem dos blocos, ele encontrou o primeiro registro publicado em 18 de dezembro de 1906, no Jornal do Brasil, mencionando o recém-criado Bloco dos Trepadores, originário da Zona Norte do Rio. O fenômeno dos blocos, no entanto, não se limitou ao Rio de Janeiro; no ano seguinte, surgiu o Bloco Carnavalesco São José, em Recife. Seguiram-se outros, como o Bloco dos Democráticos de Cascadura em 1908 e o Bloco Democrata de Botafogo em 1909. O que era uma ideia embrionária logo se expandiu e se diversificou.
Diversidade e Evolução dos Blocos
De acordo com Tiago, entre 1906 e 1910, apenas cinco blocos foram registrados, e suas características eram bastante diferentes das atuais, assemelhando-se mais a grandes sociedades da época. A partir da década de 1910, no entanto, a variedade de formatos começou a proliferar, muito semelhante ao que vemos hoje. A discussão sobre o que constitui um bloco não é nova: mesmo no início do século XX, o samba ainda não era o gênero predominante, e os blocos experimentavam diferentes ritmos, incluindo castanholas, boleros e tangos. Havia até o Bloco dos Acadêmicos Poetas, que se dedicava a declamações poéticas, mostrando a rica diversidade cultural da época.
A variedade de estilos e códigos que caracterizam os blocos cariocas faz parte de seu DNA. Luiz Antonio Simas, escritor e estudioso da cultura popular, ressalta que a expressão ‘bloco’ tem múltiplas dimensões. Blocos de embalo, blocos de sujos e até os chamados blocos de enredo têm suas particularidades. Nos anos 1920, era comum a existência de blocos de arenga, cuja principal atração era a briga, refletindo a diversidade do ambiente carnavalesco carioca.
Capacidade de Adaptação e Mudanças Culturais
A intensidade e a longevidade dos blocos, enquanto manifestações populares, devem-se à sua habilidade em absorver e se adaptar a transformações culturais ao longo das décadas. Tiago Ribeiro observa que, por serem em grande parte espontâneos, os blocos se comportam como ‘esponjas’ sociais. Durante as décadas de 1920 e 1930, blocos de concurso passaram a adotar características dos ranchos, enquanto nos anos 1940 e 1950, blocos das repartições públicas se assemelharam às grandes sociedades. Alguns blocos evoluíram para se tornarem escolas de samba, enquanto hoje incorporam estéticas modernas, como a dos DJs e fanfarras, mantendo sempre uma abordagem irreverente.
A popularidade dos blocos é evidente. Segundo a Riotur, em 2024, 459 cortejos foram autorizados, e a expectativa é que cerca de 6,8 milhões de foliões tomem as ruas para celebrar. O crescimento no número de blocos e a magnitude dos desfiles refletem a vitalidade do carnaval de rua, mas também levantam preocupações sobre a necessidade de regulamentação para manter a espontaneidade da festa.
Reflexões sobre o Futuro dos Blocos
A trajetória dos blocos e a forma como são percebidos pela sociedade mudaram consideravelmente ao longo de 120 anos. Apesar de momentos de crise e até de declínio, a resiliência dos blocos se destaca. Tiago Ribeiro menciona que, após períodos de ‘morte’ anunciada dos blocos, surgiram grandes nomes como Bafo da Onça e Cacique de Ramos, que mantiveram o espírito da folia viva.
Na década de 1980, novos grupos surgiram, ampliando o cenário do carnaval de rua. Hoje, debates em torno da presença de megablocos desafiam a definição tradicional do que é um bloco, com Luiz Antonio Simas observando que os megablocos se assemelham mais a shows do que a cortejos. Para Rodrigo Rezende, a presença de grandes artistas deve complementar, e não substituir, as propostas dos blocos espontâneos.
Por fim, João Pimentel, autor do livro ‘Blocos’, enfatiza que o futuro do carnaval depende de valorizar as manifestações espontâneas, que são a essência do carnaval carioca. Assim, a celebração dos 120 anos dos blocos de rua é não apenas um reconhecimento de sua história, mas um convite à reflexão sobre seu futuro e sua importância na cultura popular brasileira.
