Análise do Consumo de Água no Agronegócio
O agronegócio brasileiro está enfrentando um aumento significativo no consumo de água, que já ultrapassa o volume utilizado em grandes centros urbanos. Essa constatação faz parte de uma análise realizada pela Trase, uma iniciativa que tem como objetivo rastrear cadeias produtivas globais a partir de dados do MapBiomas e da Agência Nacional de Águas e Saneamento (ANA). O estudo, que abrange o período entre 2015 e 2017, aponta que a pecuária bovina consome entre 10,1 bilhões e 10,4 bilhões de metros cúbicos de água anualmente. Esse número é superior ao total utilizado pelas populações de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná e Distrito Federal, que somadas utilizam cerca de 7,8 bilhões de metros cúbicos por ano.
A situação se agrava ainda mais quando consideramos a produção agrícola. A soja, que é o principal grão exportado pelo Brasil, tem um consumo hídrico que varia entre 188 bilhões e 206 bilhões de metros cúbicos por ano, majoritariamente proveniente da chuva. Essa dependência das chuvas traz à tona a vulnerabilidade das cadeias produtivas às variações climáticas.
Dependência Hídrica nas Cadeias Produtivas
A análise também detalha a dependência hídrica em doze bacias hidrográficas. No setor de pecuária, a concentração do consumo de água é notável nas bacias do Paraná (28%), Tocantins-Araguaia (26%) e Amazônica (23%), enquanto o restante se distribui por outras regiões do país. De acordo com Michael Lathuillière, pesquisador sênior do Instituto de Meio Ambiente de Estocolmo e um dos autores do estudo, é importante destacar que a maioria da água utilizada na produção de carne não chega a ser consumida diretamente pelos animais.
O gado, segundo Lathuillière, geralmente bebe água em pequenos reservatórios, onde ocorre uma intensa evaporação que representa cerca de dois terços da água utilizada nesse processo. Essa situação resulta em uma redução da disponibilidade hídrica, afetando ecossistemas aquáticos, o consumo humano, a indústria e a geração de energia nas áreas a jusante das bacias.
Uso Hídrico na Produção de Soja e Riscos Associados
Enquanto isso, a irrigação na produção de soja, embora represente apenas 8% do uso total de água, ainda assim é significativa, com um consumo estimado entre 0,96 bilhão e 1,7 bilhão de metros cúbicos por ano. Essa irrigação está concentrada em áreas específicas, sendo que as maiores tradings do país, como Bunge, ADM, Cargill, Louis Dreyfus e Cofco, dependem bastante da bacia do rio São Francisco para a soja irrigada.
O estudo revela que essas regiões apresentam uma probabilidade de seca que varia entre 10% e 20%, sendo que a Bunge é a mais exposta, com mais de um terço de sua produção concentrada em municípios com risco superior a 20% de estiagem. Essa dependência climática, portanto, implica em riscos operacionais e financeiros significativos ao longo de toda a cadeia produtiva.
Desafios Futuros e Sustentabilidade Hídrica
A análise também estabelece uma conexão entre o consumo de água no agronegócio e a mudança climática, exacerbada pelo desmatamento. Um estudo realizado em 2024 já estimou perdas de cerca de US$ 1,03 bilhão na produção de soja e milho na Amazônia entre 2006 e 2019, em decorrência de atrasos no início das chuvas, diminuição do volume anual e aumento das temperaturas. No Cerrado, pesquisas apontam para uma diminuição de 27% na vazão dos rios desde a década de 1970, assim como uma redução de 21% nas chuvas.
Diante desse cenário, é crucial que exportadores, governos e instituições financeiras integrem indicadores de uso sustentável da água nas suas decisões de crédito e gestão. Sem ajustes coordenados, o consumo de água no agronegócio poderá aumentar os riscos produtivos e econômicos no médio prazo, exigindo uma abordagem mais consciente e responsável por parte de todos os envolvidos na cadeia produtiva.
