O Agronegócio Sob Pressão
“É tudo o que o agronegócio não precisava neste momento”, afirma José Roberto Mendonça de Barros, sócio da consultoria MB Associados. O cenário atual, marcado por uma guerra entre os EUA e Israel contra o Irã, está longe de ser ideal para qualquer setor da economia, especialmente para o agronegócio. Este setor, que é fundamental para a economia brasileira, enfrenta um momento crítico, com uma escalada no número de recuperações judiciais.
Nos últimos anos, os elos da cadeia produtiva, especialmente os relacionados aos grãos, passaram por uma série de dificuldades. Aumento nos custos de produção, supersafras que impactaram os lucros e os juros elevados são alguns dos fatores que contribuíram para essa crise. Além disso, a recente crise energética, causada pelo conflito no Oriente Médio, não ajuda. Os produtores, já com dificuldades financeiras, encontram-se em uma situação ainda mais complicada.
Um Panorama do Agronegócio
Durante a pandemia, o agronegócio brasileiro se destacou, salvando o PIB nacional, mas a perspectiva para os últimos anos tem sido desafiadora. De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq/USP, a produção agrícola cresceu 24,3% em 2020 em comparação ao ano anterior. Esse crescimento inicial trouxe otimismo, com a combinação de câmbio favorável e a adoção de novas tecnologias.
Entretanto, a realidade mudou com o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia em 2022, que elevou drasticamente os preços de insumos como o cloreto de potássio, vital para diversas culturas, que saltou de US$ 250 para US$ 1 mil a tonelada. E, mesmo com uma redução nos custos de fertilizantes entre 25% e 30% em 2024, as margens de lucro continuaram a encolher devido à oferta recorde de safras nos EUA e na Argentina.
Impactos Financeiros e Recuperações Judiciais
Os altos juros têm gerado uma pressão enorme sobre os produtores. Com taxa de juros em CDI ao redor de 14,65%, muitos produtores têm dificuldades em honrar suas dívidas. “Imagine o quanto de retorno uma empresa agrícola precisa para pagar um empréstimo de CDI mais 8%”, descreve Serigati, da FGV Agro. A situação ficou ainda mais difícil para aqueles que contraíram empréstimos em um cenário de juros elevados.
Em 2025, a quantidade de solicitações de recuperação judicial no setor agrícola chegou a quase 2 mil, um aumento de 56,4% em relação ao ano anterior. O fenômeno revela a gravidade da situação atual. A Agro Galaxy, por exemplo, pediu recuperação judicial com uma dívida de R$ 4,6 bilhões. A situação é ainda mais complicada para as distribuidoras, que também estão enfrentando enormes dificuldades financeiras.
Desafios Contínuos e Perspectives Futuras
Os especialistas destacam que a recuperação judicial no setor tem suas complexidades. Muitos produtores têm sido orientados a recorrer a essa ferramenta, pensando que é uma solução viável para não pagar dívidas e continuar suas atividades. Entretanto, essa estratégia pode ter consequências negativas, como a dificuldade de obter crédito no futuro.
Com a guerra no Oriente Médio, os preços de fertilizantes e combustíveis já começaram a subir, complicando ainda mais a situação para um setor que já estava debilitado. A dependência dos insumos provenientes dessa região é significativa, pois ela responde por cerca de 30% da produção mundial de fertilizantes. A expectativa é que o cenário de alta de custos persista, dificultando ainda mais a vida dos produtores brasileiros.
Os especialistas estão cautelosos quanto ao futuro do agronegócio, sem fazer grandes mudanças em suas projeções. Os produtores podem adiar a compra de insumos agrícolas, mas isso não muda o fato de que os custos para a próxima safra estão preocupantemente elevados. A falta de uma política clara de combustíveis e a possibilidade de desabastecimento são questões que precisam ser endereçadas com urgência.
