Impacto da Crise Venezuelana no Agronegócio do Brasil
A recente crise geopolítica na Venezuela, acentuada pelos eventos do último fim de semana e a saída de Nicolás Maduro do poder, tem gerado preocupações significativas para o agronegócio brasileiro. Embora as exportações para a Venezuela representem apenas uma fração do total nacional, o país vizinho, historicamente, mantém uma alta dependência de produtos agropecuários brasileiros, uma relação que se solidificou ao longo de décadas de instabilidade política e econômica. Segundo dados da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), entre 2016 e 2025, as exportações brasileiras para a Venezuela alcançaram US$ 6,95 bilhões, com o envio de 10,55 milhões de toneladas de produtos essenciais, como cereais, açúcar e proteínas animais.
A balança comercial é amplamente favorável ao Brasil, mas a recente deterioração da situação política venezuelana está levantando dúvidas sobre a continuidade dos negócios já estabelecidos. Os contratos em execução podem enfrentar interrupções, o que comprometeria o planejamento de produtores e empresas que dependem desse mercado. A escassez de divisas, agravada pela queda na produção de petróleo, adiciona mais complexidade ao cenário, e a incerteza sobre a nova liderança política do país só aumenta o risco para as transações comerciais.
Imprevisibilidade Ameaça o Setor Agropecuário
Com o cenário se tornando cada vez mais instável, o setor agropecuário brasileiro opera em um ambiente de alta imprevisibilidade. A falta de clareza sobre quem assumirá o controle efetivo na Venezuela nas próximas semanas e qual política econômica será implementada deixa os produtores em situação de insegurança, especialmente no que diz respeito ao cumprimento de pagamentos por cargas já embarcadas ou em negociação. Além disso, existe o risco de novas restrições comerciais ou represálias diplomáticas que poderiam impactar negativamente acordos e a confiança mútua entre Brasil e Venezuela.
A situação é ainda mais crítica, pois a Venezuela é parte da estratégia brasileira de suprimento de fertilizantes. Em um cenário de alta dependência de insumos importados e com escassa produção local, qualquer interrupção nas remessas de fertilizantes pode impactar diretamente os custos de produção do agronegócio no Brasil. A situação é exacerbada pelo interesse estratégico dos Estados Unidos nas reservas de petróleo venezuelano, as maiores do mundo, o que pode provocar oscilações nas cotações internacionais, refletindo no mercado de outras commodities.
Desafios Diplomáticos e Respostas Necessárias
Esse quadro representa mais um desafio diplomático para o Brasil, que mantém relações comerciais significativas tanto com a Venezuela quanto com os Estados Unidos, que estão envolvidos em tensões de poder na região. O recente aumento de tarifas imposto pelos EUA prejudicou a cadeia produtiva agropecuária brasileira, superado apenas após longas e complexas negociações. A configuração de poder na América do Sul está mudando, com a influência dos americanos crescendo em mercados onde a China se consolidou ao longo dos anos.
Com a instabilidade na Venezuela, é fundamental que o governo brasileiro e o setor privado respondam de forma coordenada, priorizando a proteção de contratos já vigentes, monitorando a oferta de insumos estratégicos e se preparando para potenciais choques de oferta. Em entrevista à Jovem Pan, em outubro, o especialista Marcos Troyjo, recentemente eleito para a Academia Nacional de Agricultura da SNA, destacou a necessidade de cautela nas relações comerciais com os Estados Unidos, especialmente considerando a pressão política sobre os vizinhos da América do Sul.
Troyjo alertou: “Além da Venezuela, a Colômbia também enfrenta pressão do governo Trump, com seu presidente sob sanções. O Brasil deve agir com prudência em um ambiente que envolve diretamente seus vizinhos para evitar a tensão nas agendas comerciais com os Estados Unidos.” As declarações foram feitas antes da recente incursão militar que resultou na queda de Maduro, deixando em aberto a continuidade das relações comerciais com a Venezuela.
