Um Retrato da Sobrecarga Feminina
Na última semana, estreou nos cinemas o filme (Des)Controle, dirigido por Rosane Svartman e Carol Minêm, e estrelado por Carolina Dieckmann. A trama é uma comédia dramática que mergulha na vida de Kátia, uma escritora de livros infantojuvenis que enfrenta um bloqueio criativo enquanto tenta produzir seu novo trabalho.
Sob pressão e lidando com a sobrecarga diária de ser mãe de dois filhos, Kátia se vê em meio a uma crise matrimonial e, de forma discreta e perigosa, enfrenta uma recaída no alcoolismo após 15 anos em recuperação. O enredo se inicia com um ato que parece inofensivo: uma taça de vinho para relaxar e estimular a criatividade. Entretanto, a recaída não avisa sobre sua chegada, e aos poucos, Kátia começa a escalar comportamentos de risco, como bebedeiras descontroladas em bares e relações sexuais de risco. A personagem vive uma contradição constante entre se sentir extremamente produtiva e a amnésia que acompanha suas noites, quando não se lembra do que aconteceu.
Kátia é pressionada a se manter sóbria, mas o álcool está presente em seu cotidiano, seja nas reuniões familiares, nas pequenas comemorações diárias ou nas interações sociais que parecem exigir essa prática. O filme revela essa ambiguidade de maneira sutil, evidenciando como o ambiente também pode, sem querer, empurrar indivíduos vulneráveis para o abismo.
O Drama com um Toque de Leveza
Apesar de abordar um tema tão pesado, (Des)Controle consegue preservar o que há de essencial na vida: a graça de momentos cotidianos. Nem toda tragédia se desenrola de forma total e completa; há espaço para beleza, cor e leveza, mesmo quando tudo parece ruir. Kátia, interpretada de forma brilhante por Carolina Dieckmann, é uma mulher radiante, que possui uma família amorosa e um casamento duradouro, mas, ao mesmo tempo, está sobrecarregada com suas responsabilidades profissionais, a criação dos filhos, a administração do lar e ainda precisa cuidar dos pais.
O elenco é recheado de talentos, incluindo nomes como Irene Ravache, Daniel Filho, Caco Ciocler e Júlia Almeida, que se juntam a Dieckmann para revelar dramas pessoais que muitas vezes permanecem à sombra, mesmo que externamente as aparências sejam de sorrisos.
O filme aborda essa complexidade sem simplificações. A recaída no alcoolismo pode ocorrer quando estamos fragilizados, pressionados e exaustos, e mesmo cercados por amor, muitas vezes não conseguimos resistir. (Des)Controle não é apenas sobre Kátia ou o alcoolismo; é um reflexo de todas as mulheres contemporâneas que se sentem sobrecarregadas, mas que insistem em tentar dar conta de tudo. No fim, a narrativa transcende a questão do alcoolismo, abordando a pressão que as mulheres enfrentam diariamente, o medo de não corresponder às expectativas, de extrapolar limites e como isso pode, em certos momentos, levá-las a um verdadeiro calvário.
