Efeitos do Ozempic: Alerta sobre o Mau Hálito e Saúde Bucal
No Brasil, o uso de canetas emagrecedoras cresceu 88% em 2025, conforme dados do Conselho Federal de Farmácia (CFF). Este aumento suscita preocupações entre especialistas, especialmente no que diz respeito à saúde bucal. O fenômeno, popularmente conhecido como ‘bafo de Ozempic’, refere-se ao mau hálito que alguns usuários experimentam, associado ao uso desses medicamentos para emagrecimento.
Originalmente desenvolvidas para tratar o diabetes tipo 2, substâncias como semaglutida e tirzepatida foram amplamente adotadas para a redução de peso. Embora os efeitos colaterais já conhecidos, como náuseas e refluxo, sejam frequentemente discutidos, a alteração no hálito é um tema que ganhou destaque e levou o Conselho Federal de Odontologia (CFO) a emitir orientações sobre o assunto.
O dentista Leonardo Acioli, que é CEO da rede SorriaMed, relata um aumento significativo nas queixas sobre alterações no hálito entre seus pacientes. “Nos últimos meses, temos observado uma crescente demanda de pacientes que relatam alterações no hálito durante o uso dessas medicações. Os profissionais da saúde devem estar preparados para lidar com esses casos”, afirma Acioli.
De acordo com especialistas, embora o mau hálito não seja um efeito colateral direto dos medicamentos, ele pode ocorrer como resultado das mudanças que esses fármacos provocam no corpo. A médica gastroenterologista Daniele Carvalhal de Almeida Beltrão, membro da Federação Brasileira de Gastroenterologia, explica que o problema é multifatorial. “Não é um efeito primário da droga, mas uma consequência indireta que pode ser observada na prática clínica”, diz a profissional.
Um dos principais mecanismos que contribui para o mau hálito é o retardo no esvaziamento gástrico, um efeito esperado das canetas emagrecedoras. Com a permanência dos alimentos no estômago por mais tempo, ocorre um aumento na fermentação, resultando na produção de gases e compostos voláteis que podem ser percebidos no hálito. Acioli acrescenta: “Com um trânsito intestinal mais lento, a fermentação dos alimentos aumenta, gerando gases que se manifestam no hálito”.
Outro aspecto que merece atenção é a xerostomia, ou a redução da produção de saliva. Esta condição é preocupante, pois a saliva é crucial para a manutenção da saúde bucal, ajudando na limpeza da cavidade oral e no controle das bactérias. A diminuição da saliva pode resultar em um acúmulo de biofilme bacteriano, favorecendo o mau odor. A médica Claudia Utsch Braga, professora de gastroenterologia e membro titular da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva, ressalta que outros fatores, como a estase gástrica e o refluxo, também podem contribuir para o problema. “A fermentação dos alimentos gera gases sulfurosos que, notoriamente, causam mau hálito”, afirma.
Mesmo com os relatos crescentes, a frequência desse sintoma ainda não está claramente definida em estudos clínicos, uma vez que o mau hálito não é comumente avaliado nas pesquisas sobre esses medicamentos. As especialistas alertam que o problema pode estar subnotificado, uma vez que a halitose não é mencionada entre os efeitos adversos mais comuns nos rótulos dos medicamentos. Daniele Beltrão destaca: “A halitose não é um efeito adverso frequentemente listado nas bulas, por isso acreditamos que sua ocorrência seja incomum”.
Para evitar o mau hálito, as médicas sugerem algumas medidas simples que podem ser implementadas facilmente. Manter uma boa hidratação, evitar longos períodos de jejum e manter uma rotina rigorosa de higiene bucal, incluindo escovação adequada, uso de fio dental e limpeza da língua, são algumas das ações recomendadas. “A higiene oral deve ser priorizada, com atenção especial à limpeza da língua, que é uma das principais fontes de odor”, aconselha Beltrão.
O uso de enxaguantes bucais específicos também pode ser uma boa opção, junto com a escovação regular e o uso do fio dental. Do ponto de vista gastrointestinal, práticas como fracionar as refeições e evitar alimentos de digestão mais lenta podem ajudar a minimizar os sintomas indesejados. “Qualquer dúvida deve ser discutida com um gastroenterologista, que pode fornecer orientações mais detalhadas e, se necessário, solicitar exames como endoscopia digestiva ou investigação de excesso de bactérias no intestino delgado”, conclui Claudia.
