Análise da Paranoia Autocrática
Os últimos dias de 2025 na China estão longe de refletir o tão almejado “rejuvenescimento nacional” prometido por Xi Jinping. Ao contrário, o que se evidencia é uma profunda imersão em uma paranoia autocrática que evoca memórias dos períodos mais obscuros da era de Mao Tsé-Tung. O recente expurgo no alto escalão militar — o mais drástico em décadas — expõe as entranhas de um regime que, embora apresente uma fachada de força inabalável, revela-se corroído por uma insegurança crônica.
Em dezembro de 2025, a destituição dos generais Lin Xiangyang, que comandava a região Leste, e Wang Qiang, responsável pelo Comando Central, marcou um movimento que prioriza a lealdade ideológica em detrimento da competência técnica. As mudanças nas frentes críticas de Taiwan e na segurança de Pequim são indicativas de que a habilidade militar passou a ocupar um segundo plano, enquanto figuras de destaque como He Weidong e Miao Hua foram removidas, alvos de acusações genéricas de “corrupção”. Essa situação confirma que a campanha anticorrupção iniciada em 2012 evoluiu para uma estratégia de eliminação de rivais faccionais.
O Paradoxo da Instabilidade e da Expansão Nuclear
A instabilidade atual do regime se dá em um momento em que a China intensifica sua expansão nuclear. Relatórios indicam que o arsenal nuclear do país subiu para cerca de 600 ogivas em 2024, com projeções que sugerem a possibilidade de ultrapassar 1.000 até 2030. A construção de silos de mísseis estratégicos na proximidade da Mongólia atua como uma forma de intimidação, servindo como um aviso ao mundo para que não interfira nos expurgos liderados por Xi Jinping. Essa combinação de um comando político frágil e um poder destrutivo crescente gera um cenário propenso a erros de cálculo no plano global.
A narrativa oficial de corrupção encobre falhas estruturais que comprometem a eficácia do Exército de Libertação Popular. Investigações recentes revelam desde a venda de posições até sérias deficiências na aquisição de equipamentos, incluindo mísseis com problemas técnicos. Ao optar por promover oficiais com forte alinhamento político em vez de especialistas qualificados, Xi Jinping parece sacrificar a competência em prol de um controle absoluto. O resultado é um clima de medo e paralisia burocrática, onde oficiais hesitam em tomar iniciativas por receio de se tornarem o próximo alvo da “purificação” partidária.
Repercussões Internacionais e Incertezas Estratégicas
A incerteza estratégica gerada pela situação atual obriga tanto o Ocidente quanto os países vizinhos asiáticos a reavaliar suas estratégias de defesa. Especialistas discutem se as purgas são um prenúncio de uma ação militar contra Taiwan ou se Xi Jinping, diante da fragilidade de suas forças armadas, busca apenas evitar um colapso interno. Independentemente da interpretação, a instabilidade no alto comando chinês reduz a previsibilidade do regime, transformando crises internas em riscos permanentes à segurança global.
O isolamento de Xi Jinping no comando do Politburo aumenta sua dependência de um círculo restrito de leais, que se mostram incapazes de confrontá-lo com a realidade. O expurgo vivido em 2025 é uma clara evidência de um sistema que prioriza a sobrevivência da facção no poder em detrimento da eficácia do governo. A China contemporânea se projeta como uma potência armada, mas sua estrutura interna revela fissuras profundas: um gigante cuja aparente harmonia é sustentada apenas pela força bruta.
