Falta de Combustível Preocupa Produtores Rurais
A escassez de diesel no Rio Grande do Sul tem gerado grande apreensão entre os produtores rurais e organizações do agronegócio, especialmente durante a colheita de grãos. O estado, que concentra aproximadamente 70% da produção nacional de arroz, vive um momento delicado, já que essa situação pode levar a um aumento nos preços, inclusive à revisão das projeções de inflação para este ano.
Representantes do setor reportam que estão enfrentando cancelamentos de pedidos e uma elevação significativa no preço do combustível, justamente quando a demanda nas propriedades rurais cresce. Segundo Antônio Da Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), as flutuações abruptas no preço do petróleo, que subiu de cerca de US$ 60 para mais de US$ 110 em pouco mais de uma semana devido à guerra no Irã, podem ter impactos diretos nos custos de produção.
“Estamos em um momento de espera para entender qual será o teto do preço do petróleo antes de reavaliar nossas projeções inflacionárias”, afirmou Da Luz, ressaltando que o aumento de custos na energia e combustíveis afeta quase todas as cadeias produtivas. “Não existe atividade humana que não envolva consumo de energia. Quando o preço da energia sobe, o efeito inflacionário é explosivo”, completou.
Impactos Diretos na Colheita e na Produção Agrícola
No último sábado, dia 7, a Farsul divulgou um comunicado expressando preocupação em relação às reclamações de produtores sobre a não entrega de diesel pelos Transportadores Revendedores Retalhistas (TRRs) nas últimas 48 horas, destacando que a normalização do serviço não estava prevista para o final de semana.
“As empresas responsáveis pela distribuição do diesel nas propriedades rurais nos informaram que o problema começa nas refinarias, que suspenderam a distribuição sem aviso prévio”, apontou a entidade. O Rio Grande do Sul, que deve produzir 7,8 milhões de toneladas de arroz, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vive uma situação crítica, especialmente considerando que o diesel é crucial para a operação de máquinas agrícolas e para o transporte da produção.
Além da pressão sobre os custos, o calendário agrícola no estado também intensifica a preocupação. Diferente do Centro-Oeste, onde a semeadura ocorre mais cedo, o ciclo agrícola do Rio Grande do Sul é mais tardio, em função das condições climáticas. “O Rio Grande do Sul tem um calendário agrícola um pouco diferente por estar abaixo do Trópico. Aqui, plantamos e colhemos mais tarde”, explica o economista.
Com a colheita do arroz ocorrendo em uma janela de tempo relativamente curta, qualquer interrupção ou atraso nos trabalhos pode comprometer a produção. “Estamos em plena colheita e se não conseguirmos colher, perdemos o grão”, alerta.
Projeções e Possíveis Consequências Econômicas
As projeções da Conab sugerem que a produção brasileira de arroz pode ter uma queda de 13% na safra 2025/26, totalizando 11 milhões de toneladas. No entanto, mesmo diante das preocupações com a produção, a alta nos preços pode não ser exclusivamente decorrente de uma redução na oferta de arroz. Segundo Da Luz, os maiores impactos tendem a vir do aumento nos custos de produção e transporte.
Investigação da ANP sobre Distribuição de Diesel
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) emitiu uma nota informando que recebeu relatos sobre as dificuldades na aquisição de diesel por parte de agricultores no estado, mas garantiu que os estoques são suficientes para assegurar o abastecimento. A ANP também iniciou uma investigação para analisar a formação de preços e as condições de distribuição do combustível.
De acordo com Antônio Da Luz, há indícios de um possível movimento especulativo na distribuição de diesel, embora a rápida elevação do preço do petróleo não justifique uma escassez imediata. “Não temos relatos de falta de combustível nos postos. As dificuldades parecem estar restritas aos distribuidores que atendem os produtores rurais, que estão enfrentando prazos de entrega prolongados e cobrança de preços mais altos”, comentou.
Da Luz ainda destacou que pode haver distribuidores segurando estoques comprados a preços mais baixos para vendê-los a custos mais altos, uma prática que motivou a atenção das autoridades. A ANP revelou que o estado possui um estoque regular e produz mais diesel do que consome, com a entrega do combustível seguindo seu curso normal na Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), da Petrobras.
