O Mito da Força de Vontade e Suas Implicações
A ideia de que a obesidade é uma questão exclusiva de força de vontade, frequentemente reforçada por comentários como “pessoas gordas só precisam de mais autocontrole”, continua a ser um debate acalorado. Um estudo recente, publicado na renomada revista médica The Lancet, revelou que 80% das pessoas acreditam que a obesidade pode ser completamente evitada por meio de escolhas de estilo de vida. Entretanto, especialistas alertam que essa visão é simplista e não reflete a realidade complexa da obesidade.
Bini Suresh, nutricionista com duas décadas de experiência no tratamento de pacientes com sobrepeso, expressa sua indignação em relação a essa crença. “Vejo frequentemente pacientes altamente motivados e bem informados que, apesar de seus esforços, ainda enfrentam dificuldades para controlar o peso”, explica. A médica Kim Boyd, diretora médica do Vigilantes do Peso, concorda que os termos associados à força de vontade e autocontrole são, na verdade, inadequados. “Durante décadas, as pessoas foram condicionadas a acreditar que emagrecer é apenas uma questão de comer menos e se exercitar mais, mas a realidade é bem mais complicada”, acrescenta.
A Influência da Genética na Obesidade
A professora Sadaf Farooqi, endocrinologista com experiência no tratamento de pacientes com obesidade mórbida, destaca que a genética desempenha um papel crucial na determinação do peso corporal. “Os genes afetam os circuitos cerebrais responsáveis pela fome e saciedade, e variantes nesses genes podem levar a sentimentos excessivos de fome e baixa saciedade”, aponta Farooqi. Um exemplo notável é a mutação no gene MC4R, que afeta cerca de 20% da população mundial, levando ao aumento da ingestão de alimentos.
Além disso, a endocrinologista acrescenta que alguns indivíduos podem ter metabolismo mais lento ou uma maior tendência a armazenar gordura, mesmo consumindo a mesma quantidade de calorias que outros. “Estima-se que existam milhares de genes relacionados ao peso, mas cerca de 30 a 40 deles são conhecidos em detalhe”, complementa.
O Efeito Sanfona e a Teoria do Set Point
Segundo Andrew Jenkinson, cirurgião bariátrico e autor do livro “Why We Eat Too Much”, cada pessoa possui um peso corporal ideal, determinado tanto pela genética quanto por fatores ambientais e psicológicos. Este conceito, conhecido como teoria do set point, sugere que o corpo tenta manter um peso específico, semelhante a um termostato. Quando ocorre uma perda de peso significativa, o organismo reage aumentando a fome e diminuindo o metabolismo, tornando difícil a manutenção do novo peso.
Jenkinson explica que a leptina, um hormônio produzido pelas células adiposas, é fundamental nesse processo. “Ela sinaliza ao hipotálamo sobre a quantidade de energia armazenada no corpo. Quando os níveis de leptina estão alterados, geralmente devido ao excesso de insulina, o cérebro pode não perceber corretamente a quantidade de gordura armazenada”, diz. Apesar dessas dificuldades, a boa notícia é que o set point pode ser reajustado com mudanças sustentadas no estilo de vida.
O Impacto do Ambiente na Obesidade
O aumento da obesidade, especialmente no Reino Unido, não pode ser atribuído apenas a fatores genéticos. Estudos indicam que mais de 60% dos adultos britânicos estão acima do peso, um fenômeno relacionado ao acesso a alimentos ultraprocessados, tamanhos de porções maiores e marketing agressivo de produtos prejudiciais à saúde. Suresh observa que o ambiente alimentar contemporâneo contribui significativamente para o consumo excessivo.
A diretora de saúde pública Alice Wiseman acrescenta que a visibilidade de opções alimentares ao longo do dia influencia diretamente as decisões alimentares. Com a crescente oferta de alimentos de baixa qualidade, a dificuldade em manter um peso saudável se torna mais evidente, mesmo entre aqueles que se consideram motivados. “Estamos vivendo em um ambiente projetado para o consumo excessivo”, reitera Suresh.
Desmistificando a Força de Vontade
Enquanto alguns especialistas argumentam que a força de vontade é um fator importante na gestão do peso, outros, como a nutricionista Bini Suresh, afirmam que é apenas uma parte de um quadro mais amplo. A psicóloga Eleanor Bryant, por sua vez, distingue dois tipos de força de vontade: flexível e rígida. Pessoas com força de vontade flexível tendem a ter mais sucesso em manter hábitos saudáveis. “Quando as pessoas entendem que suas dificuldades estão enraizadas em fatores biológicos e não em falta de disciplina, sua relação com a comida tende a melhorar”, conclui Suresh.
