O Motivo da Inovação
No último Prêmio Nobel de Economia, concedido em 2025 a Philippe Aghion, Peter Howitt e Joel Mokyr, o foco não recaiu sobre questões como juros, inflação ou crises financeiras. Em vez disso, a premiação trouxe à tona um debate essencial sobre as raízes do crescimento econômico sustentável. A mensagem central é especialmente pertinente para nações como o Brasil, que se prepara para um novo ciclo eleitoral. A premiação destacou que o verdadeiro motor da economia está nas ideias, no conhecimento e na capacidade de transformar esses fatores em inovação produtiva de maneira contínua.
Não é por acaso que os laureados são economistas que estudam a inovação como um processo permanente, intrinsecamente ligado à existência de instituições sólidas, à concorrência, ao aprendizado e à difusão tecnológica. A mensagem é clara: para que haja crescimento duradouro, é necessário um compromisso com a produtividade ao longo do tempo, evitando soluções improvisadas ou temporárias.
A Inovação como Motor da Economia
De maneira simplificada, a inovação é o que impulsiona a economia. O Produto Interno Bruto (PIB), que frequentemente domina o noticiário, é apenas um reflexo da velocidade desse crescimento. Um país pode perceber crescimento em um determinado período por meio da exportação de commodities, realização de grandes obras ou aproveitando um cenário internacional positivo. Contudo, sem um motor robusto — composto por ciência, tecnologia, instituições confiáveis e um ambiente favorável ao risco produtivo — essa trajetória acelerada não é sustentável. O crescimento consistente demanda um aumento contínuo da produtividade.
A discussão sobre inovação não é recente, mas remete diretamente às teorias do economista Joseph Schumpeter, que, ainda no século passado, elucidou como as economias evoluem através do conceito de destruição criativa. Essa ideia se traduz na substituição do antigo pelo novo. Exemplos disso incluem a transição das locadoras para o streaming, a substituição do telefone fixo pelos celulares e a reestruturação de serviços por plataformas digitais. Esse fenômeno não é uma mera moda tecnológica; trata-se de um mecanismo econômico que resulta em setores mais produtivos ocupando o espaço dos menos eficientes, elevando assim o nível médio da economia.
O Dilema da Economia Brasileira
O Brasil é um exemplo claro desse paradoxo. O setor agrícola, por exemplo, incorporou ciência, tecnologia e inovação de maneira contínua, o que resultou em aumento de produtividade e competitividade no mercado internacional. Em contrapartida, uma parte significativa da indústria nacional enfrenta desafios com a diminuição da densidade tecnológica, perda da capacidade de inovar e falta de interconexões produtivas. Essa disparidade é um fator chave para o nosso crescimento irregular, dificultando a manutenção de avanços a longo prazo.
Neste contexto, as contribuições de Joel Mokyr se tornam ainda mais relevantes. Ele faz uma distinção crucial entre saber como as coisas funcionam e saber como aplicá-las na prática. Produzir conhecimento é vital, mas não é o suficiente. As economias que se destacam são aquelas que estabelecem conexões institucionais capazes de transformar ciência em produtos, processos, empresas e novos mercados. Quando essa ponte não existe, o conhecimento permanece restrito a livros e artigos, enquanto, com a infraestrutura certa, ele se traduz em inovação, criação de empregos, aumento de renda e desenvolvimento econômico.
A Importância da Educação e Pesquisa
Os números revelam a relevância dessa discussão. No Brasil, os setores que dependem intensivamente de propriedade intelectual — como marcas, patentes e tecnologias — são responsáveis por cerca de 50% do PIB. Isso demonstra que a inovação não é um luxo, mas sim uma parte fundamental da economia, que determina a capacidade do país de crescer de maneira sustentável.
Entretanto, os recentes cortes no orçamento das universidades federais acendem um alerta. Esse não é um debate restrito a interesses corporativos, mas uma questão econômica central. Reduzir investimentos em educação superior e pesquisa representa uma decisão que impacta o potencial de crescimento do país, restringindo a formação de um capital humano avançado e diminuindo a capacidade de absorção e criação de tecnologia. Economias que abdicam dessa base tendem a se especializar em atividades simples, com menor valor agregado.
O debate econômico brasileiro, ao longo da história, muitas vezes confunde crescimento pontual com transformação estrutural. Crescer por alguns anos não implica em mudar o patamar de desenvolvimento. O ensinamento mais claro do Nobel é que a inovação não deve ser tratada como uma política episódica ou uma promessa eleitoral. É necessário que haja continuidade, previsibilidade e uma coordenação eficaz entre Estado e mercado.
À medida que 2026 se aproxima, os palanques eleitorais estarão repletos de promessas econômicas. A questão que deve ser levantada por cada cidadão é simples e vital: qual é a estratégia para aumentar permanentemente a produtividade do país? Sem uma agenda clara focada na inovação, o Brasil continuará a crescer quando tiver sorte, mas estagnará assim que essa sorte acabar.
