Uma Década de Incertezas Políticas no Peru
BRASÍLIA – Com a recente queda do presidente interino José Jerí, ocorrida na tarde desta terça-feira, 17, o Peru se vê diante de seu oitavo presidente nos últimos dez anos. Essa sequência de mudanças reflete a intensa instabilidade política que o país enfrenta. Desde 1985, todos os presidentes peruanos, exceto um que foi deposto, enfrentaram prisões ou investigações por delitos relacionados a corrupção e má conduta.
Na última sexta-feira, procuradores locais anunciaram a abertura de uma investigação para verificar se o chefe de Estado exerceu influência indevida nas nomeações de nove mulheres para cargos governamentais durante seu mandato. O próximo grande evento eleitoral no Peru está marcado para abril, quando os cidadãos irão às urnas para escolher quem assumirá a presidência do país.
Escândalos de Corrupção e Construtoras
A linha do tempo dos últimos anos no Peru é marcada por escândalos de corrupção envolvendo a construtora brasileira Odebrecht. Um documento divulgado pelo Departamento de Justiça dos EUA revela que a empresa subornou funcionários públicos em pelo menos 12 países, incluindo o Peru. Entre 2005 e 2014, a Odebrecht teria pago mais de US$ 29 milhões a membros do governo peruano, implicando presidentes como Alejandro Toledo, Ollanta Humala e Pedro Pablo Kuczynski, conhecido como PPK. A oposição, liderada por Keiko Fujimori, também foi arrastada para essas investigações.
Em um momento crítico, o partido de Keiko, Força Popular, divulgou uma série de vídeos que mostravam seu irmão, Kenji, e aliados oferecendo benefícios públicos em troca de apoio para evitar o impeachment de Kuczynski. A resposta de PPK foi de que os vídeos eram manipulados e distorciam o processo político.
Renúncias e Suicídios
Em março de 2018, antes de enfrentar seu segundo processo de impeachment, Kuczynski decidiu renunciar ao cargo e foi sucedido por seu primeiro vice-presidente, Martín Vizcarra. Um dos ex-presidentes mais trágicos da história do Peru, Alan García, optou por tirar a própria vida ao ser confrontado com uma ordem de prisão temporária relacionado ao escândalo da Odebrecht. Sua morte chocou a nação e trouxe à tona discussões sobre a pressão enfrentada pelos líderes políticos.
A crise não parou por aí. Em maio de 2019, o ex-presidente Humala e sua esposa foram formalmente acusados de lavagem de dinheiro. Toledo, por sua vez, foi preso nos Estados Unidos sob a acusação de ter recebido propinas milionárias. Nesse mesmo ano, em 30 de setembro, Vizcarra dissolveu o Congresso, acionando uma nova rodada de eleições legislativas após uma série de obstruções às reformas anticorrupção propostas pelo governo.
Protestos e Instabilidade Contínua
A instabilidade política se intensificou após a suspensão de Vizcarra, com milhares de peruanos saindo às ruas em protesto. A resposta das Forças Armadas e da Polícia foi de apoio ao presidente, evidenciando uma divisão crescente no país. Keiko Fujimori, que também se viu envolvida nas investigações da Odebrecht, passou períodos na prisão, refletindo a polarização política existente.
Com a chegada de 2020, a pandemia de coronavírus trouxe novos desafios. Em agosto, Vizcarra enfrentou um novo voto de desconfiança, que o levou a ser destituído em novembro por “incapacidade moral”. O então presidente do Congresso, Manuel Merino, assumiu a presidência, mas sua gestão durou pouco, sendo forçado a renunciar após uma onda de protestos. Francisco Sagasti foi escolhido para sucedê-lo em um momento conturbado.
Um Futuro Incerto
As eleições de 2021 trouxeram Pedro Castillo ao poder, que enfrentou sua própria turbulência política. Após tentativas frustradas de dissolver o Parlamento e um golpe de Estado, Castillo foi preso e condenado, permitindo que Dina Boluarte assumisse a presidência, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo no país. No entanto, sua gestão não foi fácil: cercada por escândalos e protestos, Boluarte rapidamente se tornou impopular.
Recentemente, o Congresso destituiu José Jerí, o segundo presidente consecutivo a ser afastado pelo Parlamento. Com 118 dos 122 votos a favor de sua destituição, Jerí foi empossado para completar o restante do mandato de Boluarte, que se encerra em julho, quando novas eleições estão programadas para ocorrer. A história política do Peru continua em um ciclo de crises, colocando em dúvida a estabilidade e o futuro do país.
