A Profundidade da Política do Afeto no Cinema de Kleber Mendonça
Ao refletir sobre a obra de Kleber Mendonça, não posso deixar de lembrar do comentário de Caetano Veloso a respeito de Violeta Gervaiseau, a irmã de Miguel Arraes, que acolheu o cantor em Paris, exilado desde 1964. Ele descreve esse acolhimento como uma combinação de firmeza e carinho, características marcantes dos nordestinos. Essa mesma combinação se revela ao longo dos filmes do diretor, onde o carinho se entrelaça com a rigidez da realidade, como se cada cena fosse um bordado delicado que busca redimir e dar sentido às lutas vividas na tela.
Embora muitos analisem a dimensão política de obras como *Bacurau* e *O agente secreto*, é intrigante notar que há um aspecto igualmente relevante: a política do afeto. Essa ordem do amor não deve ser deixada de lado.
O Acolhimento em *O Agente Secreto*
Um dos momentos mais impactantes de *O agente secreto* é na cena em que Dona Sebastiana, interpretada pela talentosa Tânia Maria, recebe o protagonista Marcelo, vivido por Wagner Moura. Essa interação evoca o espírito acolhedor de Violeta Gervaiseau e representa um resgate comunitário. A casa de Dona Sebastiana emerge como um espaço de refúgio, onde as conversas e a mesa posta se tornam um símbolo de resistência em meio a um mundo hostil. Nesse sentido, a casa é um microcosmo do cinema de Kleber, que começou cercado pelo calor e apoio familiar, onde ideias foram cultivadas e transformadas em filmes e resistência.
Marcelo, no início da narrativa, busca a identidade de sua mãe na Secretaria de Segurança Pública, um gesto que se torna uma reconstrução de memória. Esse filme me lembra a obra do cineasta russo Andrei Tarkovski, que, em *Esculpir o tempo*, relata uma carta de uma espectadora que fala sobre a dificuldade de reconhecer o rosto de nossas mães. Essa busca é um ponto de partida para qualquer jornada significativa.
Memória e Resistência: A Política do Afeto
Memória, acolhimento e coragem são temas centrais nos filmes de Kleber. A política apresentada em *O agente secreto* transcende o ativismo tradicional; é uma política afetiva, enraizada na comunidade. A conexão afetiva é a verdadeira essência do que significa ser parte de um lugar como Bacurau, onde a vida é construída coletivamente.
O diretor transmite uma mensagem poderosa: seu cinema não apenas reflete a vida, mas também a transforma. Desde seus primeiros trabalhos, Kleber aprimorou um estilo cinematográfico que coloca a amizade e o coletivo em primeiro plano. Essa abordagem demonstra que o processo criativo está intimamente ligado ao resultado, um resultado que está sempre evoluindo e se transformando, assim como a ciranda que simboliza a política do afeto.
Reconhecimento e Impacto Cultural
A dimensão do cinema de Kleber é, sem dúvida, profundamente brasileira. O impacto de *O agente secreto* no cenário cultural nacional e internacional é inegável, como evidenciam os prêmios recebidos, incluindo o inédito Globo Dourado. Contudo, é válido questionar se um Oscar virá em sua trajetória. O que a obra realmente precisa já está presente: um público engajado e crítico, disposto a abraçar essa política do afeto além de fronteiras e divisões.
Assim, a obra de Kleber Mendonça não é apenas uma reflexão sobre a realidade, mas um convite à transformação. Em tempos desafiadores, sua mensagem de acolhimento e resistência ressoa de maneira poderosa, lembrando-nos da importância do amor e da comunidade na construção de um futuro melhor.
