Pressão nas Editoras e Censura na Educação
As salas de aula brasileiras enfrentam um novo desafio, conforme alerta o professor Daniel Cara, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Ele denuncia que editoras de livros didáticos estão sendo alvo de pressões por lobistas do agronegócio, que buscam substituir termos científicos estabelecidos, como “agrotóxico”, por eufemismos como “defensivo agrícola”. Essa tendência, que ganhou força no Congresso Nacional, agora se volta diretamente ao mercado editorial, levantando preocupações sobre a integridade do conteúdo educacional.
“É uma situação alarmante. O consenso científico, que é tão sólido quanto a teoria da evolução, está sendo gradualmente desconstruído no mercado editorial brasileiro. O agronegócio quer defender a absurda ideia de que agrotóxico é benéfico”, critica Cara durante sua participação no programa Conexão BdF da rádio Brasil de Fato. O professor é relator de um relatório do Ministério da Educação sobre os ataques às escolas e coordena a Campanha Nacional pelo Direito à Educação.
A denúncia foi inicialmente compilada pelas professoras Andressa Pellanda e Marcele Frossá, integrantes da mesma campanha. Elas ressaltam que a pressão do agronegócio evoluiu para um novo nível, contando com um lobby que agora atua diretamente sobre as editoras de livros. “Esse lobby pulou o Poder Executivo e chegou diretamente à pressão empresarial. A estratégia envolve a ação dos empresários do agronegócio sobre os empresários das editoras”, esclarece.
Pela Soberania Alimentar e a Educação
Em 2024, Cara participou de uma reunião na Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, ao lado de representantes de comunidades quilombolas, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). Na ocasião, denunciou o uso de agrotóxicos em escolas situadas na zona rural. “Uma crítica dessa magnitude não pode ser ignorada em livros de geografia, biologia ou história. Isso revela o espaço e o poder que a extrema direita continua a disputar”, afirmou.
O professor critica as “concessões inadequadas” feitas pelo Ministério da Educação (MEC) ao agronegócio durante o governo Lula. “Considerando a relevância do setor na economia, essa concessão é inadequada e deve ser revista. Agora, eles atuam diretamente nas empresas”, destacou.
Para Cara, os ataques às escolas e ao conhecimento científico são interligados. “A escola representa o principal espaço de sociabilidade dos jovens, onde se aprende a conviver com a diversidade, questionar e duvidar. Por essa razão, é um alvo preferencial”, comenta.
Ele ressalta que, enquanto a esquerda muitas vezes abandona a competição pedagógica, a extrema direita nunca deixa de lado essa estratégia. “O livro didático é o material curricular predominante na maioria das escolas brasileiras, graças ao Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Controlar esse material é controlar o que é ensinado”, enfatiza.
Um Chamado à Vigilância e à Ação
Ao final, o professor convoca a sociedade para se manter atenta. “Atualmente, convivemos com um elevado uso de agrotóxicos e uma soberania alimentar limitada. O que há de positivo é fruto dos movimentos sociais. O consenso científico não é algo pacífico; ele precisa ser defendido diariamente. E a escola deve ser o território central dessa luta”, finaliza.
