Transformações Políticas e Seus Efeitos no Comércio
No segundo semestre do ano anterior, em colaboração com colegas de várias partes da América Latina, realizei uma pesquisa voltada para entender como empresários e executivos da região percebem o cenário político de 2026. O levantamento abordou temas variados, como a economia global, a ascensão da inteligência artificial e a relevância da cultura organizacional, entre outros assuntos.
Participaram do estudo 160 empresas de setores distintos, espalhadas por sete países: Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Equador, México e Peru, respeitando as proporções de cada economia na amostra. Quando questionados sobre a principal preocupação em meio a tantos tópicos, a “política local” destacou-se como a maior inquietação para os empresários.
Esse resultado não surpreende, considerando a instabilidade política e institucional que caracteriza a América Latina. Nos países democráticos da região, a troca de poder entre figuras conservadoras e líderes progressistas frequentemente não altera significativamente as decisões empresariais. No entanto, na América Latina, as mudanças na liderança do Executivo têm um impacto muito mais relevante no ambiente de negócios.
O Cenário Político do México e Outros Países
No México, o país vive um momento de estabilidade sob a presidência de Cláudia Sheinbaum, que assumiu o cargo em outubro de 2024. Até o momento, as relações do governo com os setores econômicos têm se mostrado tranquilas. Contudo, o contexto é bem diferente em outras nações da região.
Na Colômbia e no Brasil, a polarização entre direita e esquerda se intensifica, especialmente em um ano eleitoral para ambos os países (maio e outubro, respectivamente). Essa situação tende a gerar cautela nas empresas e empresários locais, que, de maneira discreta, estão adiando investimentos e contratações até que os vencedores sejam conhecidos e as estratégias possam ser readequadas ao novo cenário político.
Recentemente, a Colômbia se deparou com uma grave tragédia, quando o senador Miguel Uribe, um dos principais candidatos nas eleições deste ano, foi assassinado durante um evento público, aumentando ainda mais a tensão política no país. No Brasil, a preocupação com a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, taxas de juros elevadas e a deterioração das contas públicas acentua a incerteza entre os empresários sobre o futuro governo e a dinâmica entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
Desafios na Argentina, Equador e Chile
Na Argentina, a ex-presidente Cristina Kirchner está sob prisão domiciliar, enquanto o atual presidente, Javier Milei, enfrenta a pressão de um Congresso hostil após aprovar uma reforma significativa que flexibiliza as relações de trabalho. Essa mudança trouxe alívio para os empregadores, mas as forças peronistas se mostram insatisfeitas com o novo cenário, que enfraquece o poder dos sindicatos.
O Equador também vive um momento turbulento. O assassinato do candidato presidencial Fernando Villavicencio em agosto de 2023, ano em que Daniel Noboa assumiu a presidência após a saída de Guillermo Lasso, revela a crescente violência política no país. Noboa conseguiu se reeleger em 2025, apesar das críticas sobre supostas irregularidades eleitorais.
No Chile, o retorno de José Antonio Kast ao comando do país, após quatro anos sob a presidência de Gabriel Boric, gera desconfiança e tensão política. As visões divergentes entre os dois líderes, que vão desde a construção de um cabo submarino entre o Chile e a China até questões institucionais, acentuam a incerteza no clima político. Recentemente, uma ruptura inesperada ocorreu durante a transição de poder, com Kast acusando Boric de não fornecer informações essenciais, enquanto Boric refutou as acusações e encerrou diálogos.
Desigualdade e Desafios Democráticos
Enquanto isso, no Peru, o Congresso Nacional empossou mais um presidente provisório, o nono em uma década, em um cenário de instabilidade política. O país aguarda ansiosamente as eleições de abril, que devem escolher um novo presidente para um mandato de cinco anos.
Um estudo recente do IDEA Internacional destaca que “as desigualdades étnicas, raciais, de gênero e de renda continuam a acentuar as disparidades sociais na região”. Essas desigualdades, junto à discriminação estrutural enfrentada por povos indígenas, afrodescendentes e migrantes, comprometem o desempenho democrático nas nações latinas.
Em resumo, a América Latina atravessa um momento de transformações significativas, onde a política e os negócios estão intrinsecamente ligados. O futuro continua incerto, e as empresas precisarão navegar com cautela diante de um cenário em constante mudança.
