A Ópera Como Conector Cultural
Fortunato Ortombina, diretor-geral da icônica casa de ópera Scala de Milão, compartilhou suas reflexões sobre a importância da ópera na cultura global. Em uma conversa descontraída, ele relembrou sua pesquisa sobre Hilderaldo Bellini, capitão da seleção brasileira de 1958, em busca de uma possível ligação com o compositor Vincenzo, de Catania. Embora não tenha encontrado parentesco, a curiosidade cultural é um traço que Ortombina mantém em sua jornada.
O Scala, sob sua direção desde 2025, tem enfrentado desafios e conquistado aplausos. Ortombina, que anteriormente esteve à frente do La Fenice, em Veneza, destaca a administração do teatro como uma tarefa complexa, que envolve um conselho diversificado, incluindo representantes do governo, da cultura e do comércio. A abertura da temporada, marcada por eventos de alto nível, revela oStatus do Scala como um ponto focal cultural em Milão, à altura de celebrações como a Semana de Moda e o Salão do Automóvel.
Desafios e Expectativas para o Futuro da Ópera
Com um mandato até 2030, Ortombina herdou uma programação ambiciosa, incluindo o monumental ciclo “O Anel do Nibelungo”, de Wagner. Sob regência da talentosa Simone Young, a produção foi um espetáculo de grandiosidade. As performances de Camila Nylund, Klaus-Florian Vogt e Nina Stemme foram particularmente aplaudidas, enquanto a direção visual de McVicar gerou reações mistas. Após o grand finale de “O Crepúsculo dos Deuses”, Ortombina já anunciou as próximas estreias, com destaque para “Otello” e “Um Baile de Máscaras”, ambas de Verdi, que prometem trazer novas experiências aos amantes da ópera.
O diretor acredita na necessidade de um diálogo constante entre o teatro e a cidade. Essa interconexão, segundo ele, é vital para a sobrevivência cultural. Ortombina menciona a relevância de manter o contato com a comunidade, ressaltando que a cidade e o teatro são interdependentes.
A Ópera e Seu Papel na Sociedade Contemporânea
Quando questionado sobre a relevância da ópera nos dias atuais, Ortombina não hesitou: “A ópera é a linguagem mais transversal que existe”. Ele acredita que as obras de Puccini e Verdi, por exemplo, são parte de um legado que transcende gerações. “Não há quem não tenha ouvido uma nota de Puccini. Até mesmo os indígenas da Amazônia podem ter escutado ‘Vincerò’, cantado por Pavarotti em alguma propaganda”, afirma. Ortombina vê nessas obras um valor profético, sugerindo que elas continuarão a ressoar por séculos a fio.
O desafio de atualizar a experiência operística para o público contemporâneo, ainda mais em um mundo saturado de conteúdo digital, é algo que Ortombina considera essencial. Apesar de algumas vozes afirmarem que a pandemia mudou a percepção do público, ele acredita que os teatros italianos, incluindo o Scala, estão vibrantes e cheios. “As pessoas ainda valorizam a experiência ao vivo, além da qualidade musical que oferecemos”, ressalta.
Inovações e Novas Narrativas
Em relação à encomenda de novas obras, Ortombina menciona a estreia de “O Nome da Rosa”, uma adaptação da obra de Umberto Eco, que atraiu grande público. “É uma prova de que o público busca novidades, desde que estejam conectadas com narrativas familiares”, observa. Ele se mostra otimista quanto ao futuro da ópera, destacando a curiosidade dos jovens em relação a este universo.
Sobre a possibilidade de trazer obras de compositores brasileiros como Carlos Gomes para o Scala, Ortombina considera que o Brasil é uma fonte rica de histórias a serem contadas. “Gomes é um compositor importante e sua obra merece ser redescoberta. Há muito a explorar na cultura brasileira”, afirma, destacando também a riqueza literária de Jorge Amado e suas possíveis adaptações operísticas.
O Teatro em Tempos de Polarização
Por fim, ao discutir os riscos envolvidos na produção teatral em um mundo polarizado, Ortombina enfatiza a importância de saber o que se está arriscando. “Na pior das hipóteses, pode ser um acidente que se supera”, diz. Ele observa que, apesar das dificuldades, a música sempre prevalece como uma força unificadora e atemporal. O Scala, com sua longa tradição, continua a ser um espaço de sensibilidade, onde a arte e a vida se entrelaçam, proporcionando uma experiência única e necessária para a sociedade.
