O Impacto do Governo Collor na Cultura Brasileira
O governo de Fernando Collor de Mello, que iniciou em 1990, ficou marcado por uma abordagem devastadora em relação à cultura nacional. Ao assumir a Presidência da República, Collor trouxe consigo uma visão mercadológica, defendendo que produções artísticas como filmes, shows e peças de teatro não deveriam contar com apoio público. Para ele, o setor cultural deveria se adequar ao mercado capitalista, sobrevivendo por conta própria. Uma das suas primeiras ações foi a extinção da Embrafilme, antiga estatal que apoiava o cinema brasileiro, o que resultou em um cenário desolador para a indústria cinematográfica. Em 1992, apenas um único longa-metragem brasileiro chegou aos cinemas, evidenciando o estrago causado por sua gestão.
O Surgimento da Lei Rouanet
Em meio a esse ambiente de desinvestimento cultural, surgiu uma reviravolta significativa com a nomeação de Paulo Sérgio Rouanet como secretário nacional de Cultura, em março de 1991. Rouanet, filósofo e diplomata, tinha ideias progressistas sobre a função do Estado no fomento à cultura. Ele foi o responsável pela elaboração da Lei Federal de Incentivo à Cultura, que ficou conhecida como Lei Rouanet. Essa lei, sancionada por Collor em dezembro de 1991, introduziu incentivos fiscais que permitiram que empresas e cidadãos destinassem parte do imposto de renda para projetos culturais.
A Lei Rouanet não apenas substituiu a anterior Lei Sarney, que havia sido extinta por Collor, mas também se tornou o principal mecanismo de apoio às artes no Brasil. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas indicou que, em 2024, a Lei Rouanet movimentou cerca de R$ 25,7 bilhões na economia nacional, gerando e mantendo aproximadamente 228 mil empregos. Graças a esse incentivo, obras aclamadas como “Central do Brasil” (1998) e “Dois Filhos de Francisco” (2005), além de festivais de música e iniciativas de restauração de patrimônios, receberam o suporte necessário para se desenvolver.
A Mudança de Paradigma e os Desafios Enfrentados
Rouanet assumiu a secretaria em um contexto complicado, após a demissão do cineasta Ipojuca Pontes, que havia se tornado um problema político devido à falta de credibilidade junto à classe artística. Antes de assumir, Rouanet já havia deixado claro que a política cultural de Collor era insustentável. Em uma entrevista ao jornal O Globo, ele enfatizou que, segundo a Constituição Federal, era dever do Estado apoiar a produção e a difusão da cultura no país.
Ele comparou a situação do Brasil com a de outros países, como França e Inglaterra, onde o Estado tem um papel ativo e próximo do processo cultural, oferecendo subsídios e apoio financeiro. Rouanet destacou a necessidade de apoiar produções que não necessariamente teriam um apelo comercial imediato, como filmes experimentais, afirmando que o apoio governamental é essencial para a diversidade cultural.
A Aprovação da Lei Rouanet e suas Consequências
A Lei Rouanet foi aprovada em novembro de 1991, em uma votação simbólica que refletiu um acordo entre governo e oposição. A reação de artistas e intelectuais foi positiva. Ferreira Gullar, renomado poeta, comemorou a aprovação, ressaltando a importância de que a lei beneficie quem realmente necessita. Nélida Piñon, escritora, também se colocou a favor, afirmando que a Lei Rouanet poderia revitalizar um mercado cultural sufocado.
Com a evolução da Lei Rouanet, a participação do Estado na cultura brasileira passou a ser vista de maneira mais favorável. Rouanet, em suas declarações, reafirmou que o liberalismo não exclui o apoio governamental, desde que este ocorra de maneira transparente e eficaz. O legado de Paulo Sérgio Rouanet vai além da lei que leva seu nome; sua visão sobre a função do Estado na cultura continua a ser debatida e analisada até os dias de hoje. Ao permitir que iniciativas culturais prosperassem por meio de incentivos, a lei ajudou a moldar um cenário onde a arte e a cultura podem florescer, apesar dos desafios enfrentados ao longo dos anos.
