A Influência do Petróleo na Política da Venezuela
A prisão de Nicolás Maduro (PSUV, esquerda) por forças militares dos EUA em 3 de janeiro de 2026 marcou uma reviravolta em um ciclo político que se estendeu por quase três décadas, iniciado por Hugo Chávez (PSUV, esquerda). Esse período foi fundamental para a transformação da Venezuela, onde o petróleo desempenhou um papel central.
Chávez consolidou seu projeto bolivariano em uma economia amplamente dependente do petróleo, intensificando esse modelo e reorganizando o poder em torno de um Estado centralizado. O controle partidário das instituições e a influência das Forças Armadas foram fundamentais para essa reestruturação.
A Crise Pré-Chávez e Suas Consequências
O ascenso de Chávez não foi um fenômeno isolado, mas sim o resultado de crises acumuladas durante o Pacto de Punto Fijo (1958‑1998). Esse acordo entre os partidos AD (centro-esquerda) e Copei (centro-direita) prometia alternância no poder e repartição da renda do petróleo com empresas estrangeiras, predominantemente norte-americanas. No entanto, não conseguiu diversificar a economia ou reduzir as desigualdades sociais.
Desde a implementação da Lei de Hidrocarbonetos em 1943, o Estado venezuelano recebia aproximadamente 50% dos lucros provenientes das vendas de petróleo. O restante era direcionado a empresas estrangeiras, especialmente dos EUA, resultando em uma economia extremamente dependente do mercado petrolífero e das oscilações dos preços internacionais, sem avanços significativos na diversificação econômica.
Na década de 1980, a queda nos preços do petróleo e o aumento da dívida externa culminaram numa crise que fragilizou a capacidade do Estado de manter essa política. O ponto de inflexão ocorreu em 1989, durante o Caracazo, uma série de protestos e saques em Caracas e outras cidades. A repressão violenta dos atos resultou em centenas de mortes, evidenciando o descontentamento popular com a dependência do petróleo e as políticas fiscais insustentáveis.
Foi nesse clima de insatisfação que Chávez, então tenente-coronel, protagonizou uma tentativa de golpe em 1992. Após ser preso e anistiado, ele emergiu em 1998 como um símbolo anti-elite, conquistando a presidência com forte apoio popular nas urnas.
Os Fundamentos do Projeto Bolivariano
O bolivarianismo, idealizado por Chávez, foi apresentado como uma reforma do Estado com foco na justiça social. Entre seus pilares, estavam a soberania nacional, o controle estatal do petróleo, a redistribuição social financiada por receitas de commodities e a integração regional, consolidada pela Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), fundada em 2004 em parceria com países como Cuba e Bolívia.
Ao promulgar a nova Constituição em 1999, Chávez renomeou o país para “República Bolivariana da Venezuela”, alinhando-se à figura de Simón Bolívar. A alteração do nome simbolizava, segundo ele, a “refundação do Estado” e a construção de uma identidade nacional que priorizava a soberania e a justiça social.
Com a nova Constituição, Chávez centralizou ainda mais o poder no Executivo, enfraquecendo os mecanismos de freios e contrapesos. A nova legislação permitiu reeleições por tempo indeterminado, controle sobre o Judiciário e influência no Legislativo, além de implementar mecanismos de democracia participativa que fortaleciam sua posição como presidente.
O professor Thiago Rodrigues, do Instituto de Estudos Estratégicos da UFF, ressalta que o bolivarianismo surgiu como uma tentativa de “autonomização da América Latina frente ao imperialismo das potências do Norte, especialmente os EUA”.
Desafios Estruturais e a Doença Holandesa
A sustentação do chavismo foi favorecida pelo boom das commodities nos anos 2000. Entretanto, especialistas alertam que essa abundância gerou vulnerabilidades estruturais profundas. A alta do petróleo no início dos anos 2000 aumentou a capacidade do Estado venezuelano de financiar políticas sociais e investimentos públicos, solidificando a dependência econômica em relação ao petróleo.
A entrada massiva de dólares valorizou a moeda local, prejudicando a competitividade de outros setores e acentuando a dependência do país das exportações de petróleo, fenômeno conhecido como “doença holandesa”.
Hugo Garbe, professor de ciências econômicas da UPM, afirma que “a doença holandesa ocorre quando a abundância de um recurso natural altamente rentável provoca uma valorização da taxa de câmbio, reduzindo a competitividade dos demais setores”. Para ele, embora o petróleo tenha impulsionado o crescimento a curto prazo, gerou fragilidades a longo prazo.
O economista Marcelo Bassani, da Boa Brasil Capital, complementa que “esse processo consolidou um modelo de estado rentista, onde o governo depende da apropriação e distribuição da renda de um único recurso”. De acordo com ele, a Venezuela apresentou “todos os sinais clássicos” de uma economia não diversificada, com um setor manufatureiro debilitado e extrema vulnerabilidade às flutuações dos preços do petróleo.
Dados do Poder360 indicam que o petróleo representa cerca de 15% do PIB venezuelano desde 2020, reforçando a contínua dependência do recurso.
A Transição do Chavismo sob Maduro
Embora Chávez e Maduro compartilhem a mesma base política e ideológica, atuaram em contextos bastante distintos. Chávez construiu sua liderança carismática através de um apelo popular forte, combinando expansão social e retórica antiamericana, o que lhe conferiu legitimidade tanto interna quanto externamente.
Por outro lado, Maduro herdou um sistema já centralizado, mas sem o mesmo respaldo político e com menor capacidade de articulação regional. Seu governo passou a depender do controle institucional –Forças Armadas, Judiciário aparelhado e aparato partidário– para manter a governabilidade, em meio a uma grave crise econômica e queda da produção petrolífera.
Com a ausência da liderança de Chávez e o impacto da doença holandesa, o chavismo transformou-se de um projeto de mobilização social para um sistema de poder focado na preservação do controle estatal. Essa mudança levou a um aumento do isolamento internacional, limitou os canais de mediação política interna e dificultou uma transição institucional negociada.
