Situação da Produção de Café no Brasil
A produção de café no Brasil deve alcançar um nível histórico em 2024, com estimativas apontando para 66,2 milhões de sacas beneficiadas, superando em 3,2 milhões o recorde anterior, alcançado em 2020. Apesar desse marco, as expectativas não são de redução nos preços para os consumidores no curto prazo.
Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), esse aumento na produção não se traduzirá em preços mais baixos imediatamente. Felippe Serigati, economista do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV Agro), explica que, embora haja uma expectativa de acomodação nos preços, eles ainda permanecerão altos.
Desafio dos Estoques e Clima
O mercado global de café enfrenta um desafio significativo devido à baixa nos estoques, resultado de duas safras consecutivas de oferta limitada. Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indicam que os estoques mundiais de grãos caíram de 31,9 milhões para 20,1 milhões de sacas de 60 kg desde 2021, uma diminuição de 36,9%.
Entre 2021 e 2022, a cafeicultura nacional enfrentou uma das piores crises da sua história, culminando na menor safra já registrada, atribuída à estiagem severa. Em 2024, a falta de chuvas novamente impactou o desenvolvimento das lavouras, forçando os produtores a aumentarem seus gastos com manutenção e controle de pragas, que surgem com o aumento das temperaturas.
Impactos Climáticos e Produção Global
A situação não é exclusiva do Brasil. Países como Vietnã, Colômbia e Indonésia também enfrentam quebras significativas na produção devido às adversidades climáticas. Como o cultivo do café é extremamente sensível às variações de temperatura e demanda ciclos agrícolas longos, as consequências climáticas sobre a oferta devem se estender por alguns anos.
Além disso, a produção de café não se ajusta rapidamente, e novos plantios levam de três a cinco anos para alcançar a capacidade produtiva ideal. A demanda, por outro lado, continua a crescer, especialmente com a expansão do mercado asiático e o aumento na popularidade dos cafés especiais.
Preços Altos e Impactos no Consumidor
Os preços do café no mercado brasileiro estão diretamente relacionados às cotações internacionais, refletindo fatores como variação cambial, impostos e custos logísticos internos. Serigati ressalta que uma única safra recorde não é suficiente para resolver a situação. Seriam necessárias, no mínimo, duas safras consecutivas de bons resultados para reequilibrar oferta e demanda e, assim, reduzir os preços a níveis mais acessíveis, semelhantes aos de 2023 e 2024.
A Alta dos Preços Desde 2020
De acordo com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o preço do café moído acumulou uma alta de 99,48% entre janeiro de 2024 e junho de 2025, embora tenha mostrado uma leve queda recentemente. Para o café solúvel, o aumento nos últimos dois anos foi de 36,56%. No mesmo período, a inflação geral no Brasil foi de 9,66%.
O café é a segunda bebida mais consumida no Brasil, perdendo apenas para a água, conforme um estudo da Jacobs Douwe Egberts. O aumento contínuo nos preços do café tem pressionado o orçamento das famílias brasileiras, que agora enfrentam um aumento de 219,6% nos preços do produto desde janeiro de 2020, uma situação que supera a variação acumulada do IPCA de 39,7%. Isso demonstra que o preço do café cresceu 179,9% acima da inflação no mesmo período, o que evidencia a pressão que essa commodity exerce sobre a economia familiar.
