Início de um Novo Ciclo para a Cevada
O inverno no Sul do Brasil não se resume apenas a quedas nas temperaturas; ele sinaliza o começo de um novo ciclo no agronegócio. Neste cenário, a cevada se destaca, ocupando áreas anteriormente inativas ou dedicadas ao cultivo de trigo. De forma discreta, mas crucial, essa cultura liga os esforços dos agricultores a uma das indústrias mais relevantes do país.
Como o terceiro maior produtor de cerveja mundial, o Brasil depende fortemente do campo para a produção de sua bebida emblemática. Para muitos agricultores da Região Sul, a cevada consolidou-se como uma fonte complementar de renda durante a safra de inverno. Além disso, sua utilização na rotação de culturas permite uma otimização do solo ao longo do ano.
Incentivo da Ambev à Produção de Cevada
Reconhecendo a necessidade crescente de cevada, a Ambev, maior cervejaria do Brasil, implementou uma nova política comercial voltada para incentivar a produção deste cereal. A partir de 2023, a companhia garantirá que metade do valor da colheita de cevada cervejeira seja assegurado por um preço preestabelecido, enquanto a outra metade estará atrelada à cotação do trigo, que compete com a cevada nas áreas produtivas.
“Essa mudança atende a uma demanda dos produtores, uma vez que o preço do trigo despencou no último ano. Estabelecemos R$ 75 por saca, considerando que o trigo está atualmente em torno de R$ 58 no Rio Grande do Sul, para cobrir os custos de produção. A outra parte continua vinculada ao preço do mercado para manter a lógica competitiva,” explica Edivan Panisson, diretor de Suprimentos e Sustentabilidade da Ambev.
Modelo de Negócio e Assistência ao Produtor
A Ambev assegura a compra de 100% da produção de cevada da região, além de oferecer apoio técnico e orientações sobre o manejo e seleção das variedades. Mesmo a cevada que não atinge os padrões exigidos para a produção de cerveja é adquirida pela empresa para uso como forrageira.
O pagamento aos produtores ocorre no final de dezembro, após a colheita do cereal, que é plantada entre maio e junho e colhida entre outubro e novembro.
Parcerias e Expansão no Paraná
Na busca por diversificar sua rede de fornecedores, a Ambev também mantém uma parceria de longa data no Paraná com a cooperativa Agrária. Esta cooperativa, com sede em Guarapuava, anunciou no ano passado planos para construir mais duas maltarias em Campos Gerais.
“O cultivo de cevada no Paraná é ainda mais expressivo do que no Rio Grande do Sul, e é vital para nós. Por isso, garantimos a compra de todo o malte produzido pela cooperativa, o que traz valor agregado para seus associados,” complementa Panisson.
Projeção de Crescimento e Desafios Climáticos
Em 2026, o Paraná deve semear cevada em uma área de 111,3 mil hectares, um aumento de 7,3% em relação ao ano anterior. No Rio Grande do Sul, a expectativa é de 34,5 mil hectares, o que representa um crescimento de 9,9%. Apesar do avanço, a Embrapa constatou que a produção de cevada no Centro-Oeste enfrenta desafios, como a necessidade de irrigação, que encarece o cultivo.
Em Goiás, Minas Gerais, São Paulo e no Distrito Federal, a Embrapa estima que existem 5 milhões de hectares com potencial para o cultivo de cevada no inverno, sob irrigação, em altitudes superiores a 800 metros.
Desempenho das Cultivares e Perspectivas Futuras
O principal obstáculo à expansão da cevada no Sul do Brasil é o clima. O excesso de chuvas durante a fase reprodutiva prejudica a qualidade dos grãos, fazendo com que não cumpram os padrões mínimos necessários para a malteação. O pesquisador da Embrapa Trigo, Aloisio Vilarinho, ressalta que o cultivo está concentrado no Paraná e no Rio Grande do Sul, onde a colheita ocorre na primavera, período marcado por condições climáticas desafiadoras.
“Ondas de calor, geadas tardias e chuvas frequentes podem causar perdas nas lavouras, especialmente na fase pré-colheita,” destaca Vilarinho. Para combater essas adversidades, a pesquisa está se dedicando ao desenvolvimento de cultivares que demonstrem maior resistência a doenças e condições climáticas adversas, sem comprometer as qualidades exigidas para a produção cervejeira.
Ambev e a Inovação em Sementes
A Ambev também promove a utilização de sementes que asseguram a qualidade da cevada. No ano passado, a empresa obteve a homologação da cultivar ABI Valente, fruto de 12 anos de pesquisa. Essa variedade é considerada 16% mais produtiva que as opções atuais, com grãos 15% maiores e mais homogêneos, além de oferecer maior resistência a doenças, reduzindo a necessidade de defensivos agrícolas.
Os produtores associados não pagam royalties pela utilização da ABI Valente, que poderá também ser licenciada para outras indústrias cervejeiras. Essa iniciativa demonstra o compromisso da Ambev não apenas com a produção, mas também com a sustentabilidade e a inovação no setor.
