A Embrapa e a Revolução da Pera no Semiárido
A Embrapa Semiárido, localizada em Petrolina (PE), deu um passo significativo para a agricultura nordestina ao desenvolver uma tecnologia de manejo que possibilita a produção comercial de pera em um ambiente de semiárido. Essa inovação quebra a antiga associação da cultura da pera a climas frios, permitindo que a região de Casa Nova, na Bahia, se destaque com um diferencial único: a possibilidade de colher duas safras anuais na mesma planta. No Vale do São Francisco, onde as temperaturas raramente ficam abaixo dos 20 °C, essa adaptação se torna um marco para a fruticultura local.
Tradicionalmente, variedades como a Triunfo exigem até 450 horas de frio por ano, com temperaturas iguais ou inferiores a 7,2 °C, para completar seu ciclo produtivo. Contudo, a nova abordagem da Embrapa envolve o uso de inibidores de crescimento, uma estratégia inspirada também na cultura da mangueira, que elimina a necessidade de frio.
Resultados Promissores e Potencial de Mercado
De acordo com Paulo Roberto Lopes, pesquisador responsável pelos estudos, é possível induzir uma nova floração em aproximadamente 30 dias após a colheita, resultando em outra safra. “Geralmente, uma safra é maior e a outra menor, mas ambas apresentam boa produtividade e qualidade”, explicou o especialista.
Em termos de mercado, o Brasil enfrenta uma situação peculiar: importa cerca de 95% das peras que consome, totalizando em torno de 180 mil toneladas anualmente. Com a oferta de frutas nacionais mais acessíveis, o consumo poderia praticamente dobrar, chegando a 300 mil toneladas, segundo estimativas da Embrapa. Paulo Roberto enfatizou que, com uma melhor organização e valorização da produção, há um espaço significativo para crescimento nesse setor.
Casa Nova: O Novo Celeiro da Pera no Nordeste
A cidade de Casa Nova (BA) se destaca como um dos principais centros de cultivo da pera na Bahia, fruto do trabalho colaborativo entre a Embrapa, a Axia Energia Nordeste e os agricultores locais, no âmbito do Projeto Eólicas de Casa Nova. Clébio da Silva Santos, técnico agrícola envolvido no projeto desde 2017, destacou que fazer a pera crescer no Vale do São Francisco era impensável até pouco tempo atrás, mas agora é uma realidade concreta.
Vantagens Fitossanitárias e Manejo Eficiente
A expansão da cultura da pera no Semiárido é facilitada pela baixa incidência de pragas na região. José Eudes Oliveira, também da Embrapa, ressaltou que, diferentemente das regiões do Sul do Brasil, onde a cultura é severamente afetada por pragas, como pulgão-lanígero e mosca-das-frutas, a experiência local tem mostrado que, após 16 anos de monitoramento, as infestações que comprometem a produção são raras.
Embora a presença de cochonilhas e a mosca-das-frutas exijam atenção, a recomendação é de um controle preventivo eficaz, utilizando armadilhas e estratégias de manejo biológico, evitando o uso indiscriminado de pesticidas.
Experiência de Produtores e Expansão do Projeto
O produtor rural Gilvan Nogueira, um dos colaboradores do projeto, compartilha sua satisfação com os resultados obtidos. “Os resultados têm sido muito positivos e minha intenção é ampliar a área de cultivo”, afirmou. Para Gilvan, a chave está na condução dos galhos e na realização das podas, que impactam diretamente na produtividade da fruta. “No geral, a cultura da pera é relativamente simples, e com a devida orientação técnica, os resultados são excelentes”, completou.
A Fase III do Projeto Eólicas de Casa Nova, financiado pela Axia Energia Nordeste em parceria com a prefeitura, visa expandir a atuação na região, incluindo a perfuração de poços artesianos e a implementação de sistemas de irrigação. Além disso, pretende-se impulsionar a fruticultura com culturas complementares, como melão e melancia, e fortalecer a atividade da apicultura.
Assim, a cultura da pera se consolida como uma das prioridades do projeto. “Esse trabalho visa beneficiar os produtores de Casa Nova e adjacências, que recebem suporte técnico e insumos necessários para aplicar as inovações e elevar a qualidade de vida no semiárido”, finalizou Rebert Coelho, pesquisador da Embrapa.
