Biocombustíveis: A Nova Fronteira para o Carnaval Sustentável
No carnaval de rua de São Paulo, cerca de 630 blocos movimentam uma ampla estrutura composta por trios elétricos e geradores, que muitas vezes operam com diesel. Essa configuração resulta em uma alta emissão de dióxido de carbono (CO₂) em um espaço de tempo reduzido. Durante os dias de festa, as operações desses veículos geram aproximadamente 100,8 toneladas de CO₂, conforme dados do GHG Protocol. Esse cenário revela o impacto ambiental significativo associado aos desfiles e à logística necessária para sustentar a festividade nas ruas.
Atualmente, o diesel é o combustível predominante utilizado nesses equipamentos, o que leva à emissão de CO₂ e outros poluentes em áreas urbanas densamente povoadas. A situação é ainda mais preocupante, uma vez que, a partir da sanção da lei 15.082/2024, todo diesel comercializado no Brasil deverá conter 15% de biodiesel (B15). No entanto, essa porcentagem deixa a maior parte do combustível ainda proveniente de fontes fósseis.
Em um estudo realizado pela Binatural, uma produtora brasileira especializada em biodiesel, estima-se que a substituição do diesel pelo biodiesel puro (B100) poderia reduzir as emissões para cerca de 18,9 toneladas de CO₂. “Essa mudança resultaria em uma diminuição aproximada de 81% nas emissões de gases de efeito estufa, podendo alcançar até 90% se incluirmos os geradores. Em termos práticos, isso significa que quase 82 toneladas de carbono deixariam de ser liberadas na atmosfera durante a festividade”, afirmou a equipe da Binatural.
Eventos como Laboratórios de Transição Energética
Os dados são reveladores: eventos de grande porte podem ser utilizados como verdadeiros laboratórios para a transição energética, relacionando celebrações populares aos compromissos climáticos do Brasil e às diretrizes estabelecidas pela Lei do Combustível do Futuro. Essa lei promove o uso de soluções já disponíveis, que podem ser implementadas de forma imediata.
O Brasil é um dos líderes mundiais na produção de biocombustíveis, possuindo uma capacidade instalada que supera a demanda atual. Isso possibilita a ampliação do uso de biodiesel em setores como transporte urbano e geração temporária de energia, sem a necessidade de investimentos estruturais adicionais. Assim, a adoção do B100 em grandes eventos se torna uma alternativa viável.
André Lavor, CEO e cofundador da Binatural, enfatiza que incluir o biodiesel nos trios elétricos e geradores é uma forma de unir tradição, desenvolvimento econômico e responsabilidade ambiental. “É uma solução viável, nacional e facilmente aplicável, que pode reduzir significativamente as emissões, sem exigir transformações complexas na infraestrutura”, explicou Lavor.
Políticas Governamentais em Favor da Sustentabilidade
Nos últimos anos, o governo brasileiro tem intensificado suas políticas para acelerar a transição energética e mitigar as emissões de gases de efeito estufa, destacando a Lei do Combustível do Futuro. Essa legislação estabelece um cronograma para aumentar gradativamente a participação de biocombustíveis na matriz energética do país, incentivando o aumento da mistura de etanol na gasolina e de biodiesel no diesel, além de promover novas tecnologias, como o combustível sustentável de aviação (SAF) e o biometano.
Esse avanço cria oportunidades diretas para o agronegócio brasileiro, já que a demanda crescente por biocombustíveis tende a aumentar o consumo de matérias-primas agrícolas, como cana-de-açúcar, milho e soja. Os produtores rurais se beneficiam, podendo expandir a produção e diversificar suas fontes de renda, além de participar de novas cadeias de valor relacionadas à energia de baixo carbono.
Simultaneamente, o setor agroindustrial pode investir mais em tecnologia e inovação, aumentando a produtividade e consolidando sua importância na construção de uma economia sustentável.
Futuro Promissor para o Biodiesel Brasileiro
O Brasil está se preparando para adotar uma estratégia global que visa abrir mercados e fortalecer a imagem do biodiesel brasileiro no exterior, com iniciativas programadas para 2026. A Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (APROBIO) está liderando esses esforços, priorizando a atuação internacional. Jerônimo Goergen, presidente da entidade, afirmou que o país possui um produto competitivo, apto a atender tanto o mercado interno quanto o externo. “O biodiesel já se estabeleceu como uma marca do Brasil no cenário dos combustíveis renováveis. Ao longo do ano, desenvolveremos ações voltadas para a abertura de novos mercados e para o posicionamento do biodiesel brasileiro globalmente”, destacou.
Além disso, a Inpasa, maior produtora de etanol de milho da América Latina, anunciou um investimento de R$ 7 bilhões em novas unidades até 2026, reforçando sua presença no setor de biocombustíveis. Renato Teixeira, diretor de Comunicação e Marketing da empresa, ressaltou que o biocombustível à base de milho é uma ferramenta chave para a descarbonização global. “Tanto o etanol de milho quanto o de cana são produtos extremamente sustentáveis e já estão prontos para serem utilizados nesse processo”, concluiu.
