Mudanças no Sisu Geram Polêmica entre Estudantes
A disputa por vagas em Medicina se intensificou no Sisu 2026, com a média de pontos necessária para ingressar no curso mais concorrido do Brasil subindo de 795 para 804. Essa elevação de nove pontos foi revelada em um levantamento exclusivo realizado pelo estatístico Frederico Torres, mestre pela Universidade de Brasília (UnB) e criador do projeto Mente Matemática. O estudo utilizou dados do próprio Sisu e destacou que apenas a Universidade Estadual de Maringá (UEM) registrou queda na nota de corte.
A nota de corte, que representa a pontuação mínima para aprovação em cada curso, varia conforme a demanda e a quantidade de vagas disponíveis. Essa oscilação pode ser influenciada por fatores externos, além da qualidade dos candidatos. Por exemplo, a Universidade Federal de Uberlândia (UFU) viu sua nota de corte disparar de 799 para 842, um aumento considerável de 43 pontos. Segundo Torres, essa mudança drástica se deveu principalmente à reavaliação dos pesos das provas no cálculo da nota final.
A Nova Regra do Sisu e Suas Implicações
O especialista acredita que o aumento generalizado nas notas de corte pode ser atribuído às recentes alterações nas regras do Sisu, que agora permite que candidatos utilizem mais de uma nota do Enem para a seleção. Essa decisão, anunciada pelo Ministério da Educação (MEC) em novembro, gerou descontentamento entre muitos estudantes, especialmente aqueles que estão na fase final do ensino médio. Na nova configuração, os alunos que estão prestando o Enem pela primeira vez podem competir apenas com uma nota, enquanto os mais velhos têm a possibilidade de usar até três notas se já participaram do exame em anos anteriores.
Universidades federais como a UFMG, UFC e UFPI, que não alteraram suas regras para 2026, ainda assim testemunharam um aumento nas notas de corte entre 8 e 11 pontos. Isso é especialmente significativo em cursos tão disputados quanto Medicina, onde pequenos décimos podem ser determinantes para a aprovação.
Posicionamento do MEC e Controvérsias
O MEC defendeu as mudanças alegando que a modernização do sistema visou a segurança da informação, a estabilidade operacional e a melhoria na experiência dos usuários. Para o ministério, o crescimento nas notas de corte é resultado da dinâmica de concorrência entre candidatos e da escolha de opções de cursos. Em 2024, foram disponibilizadas 264 mil vagas, sendo que 23 mil não tiveram candidatos na primeira chamada, muitas delas concentradas nas regiões Nordeste e Sudeste, com 40% sendo destinadas a cursos de Licenciatura.
Frederico Torres, no entanto, aponta que o aumento das notas de corte não é, necessariamente, um ponto negativo. Contudo, a nova regra poderá distorcer as listas finais, permitindo que estudantes que não têm real interesse em se matricular possam ganhar aprovação — uma prática conhecida como ‘colecionadores de aprovação’. Esses estudantes buscam aumentar o número de aprovações em sua trajetória acadêmica, o que pode ser utilizado como estratégia de marketing por cursinhos e escolas de preparação para o Enem.
Análise Crítica e a Falta de Transparência do MEC
A análise realizada por Torres na seleção do Sisu para o segundo semestre de 2023 revelou que 46 dos 50 aprovados em Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) já haviam sido aprovados em outros cursos, demonstrando o comportamento dos candidatos. Dentre os 50, apenas sete efetivaram a matrícula.
Em um desdobramento significativo, o MEC não divulgou, pela primeira vez em anos, a lista centralizada dos aprovados no Sisu, o que foi amplamente criticado. O ministério justificou essa decisão como um aprimoramento para atender à proteção de dados pessoais, mas pesquisadores como Torres argumentam que a transparência é vital em processos seletivos como esse. Sem essa informação, candidatos que estão na lista de espera ficam sem a clareza necessária para tomar decisões sobre suas opções futuras.
Torres conclui afirmando que a disponibilização da lista é fundamental, pois permite que estudantes que não foram aprovados tenham uma melhor compreensão da competição e possam decidir em qual lista de espera se inscrever. Essa falta de dados pode prejudicar ainda mais a confiança no sistema e gerar incerteza entre os alunos que aspiram a ingressar em cursos tão concorridos.
