Defesa de dissertação em duas línguas valoriza cultura indígena
O professor venezuelano Franco Junior Marval Javier, de 38 anos, conquistou o título de mestre em Letras e Cultura pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) ao defender uma dissertação bilíngue, em português e na língua indígena pemon taurepang, etnia a qual pertence. A pesquisa, intitulada “A Cosmovisão das Histórias de Origem na Literatura Indígena Pemon-Taurepang”, recebeu nota máxima da banca avaliadora no dia 17 de março de 2024.
Naturalizado brasileiro e residente em Caxias do Sul desde janeiro de 2024, Javier atua como professor de espanhol na Escola Estadual Professora Ivonne Lúcia Triches dos Reis, localizada no bairro Desvio Rizzo. Para a defesa, ele convidou familiares e uma amiga para acompanhar o momento, o que motivou a apresentação também na língua originária. A escolha tem raízes profundas: o pesquisador foi alfabetizado na Venezuela por meio de um processo bilíngue envolvendo o taurepang e o espanhol.
Pesquisa resgata saberes tradicionais e aproxima culturas
“A primeira língua que eu penso é o taurepang. A partir dela e dos nossos valores, eu penso e estruturo tudo”, explica Javier, que herdou a ancestralidade indígena da mãe, Malcides Javier Gonzalez. A dissertação busca aprofundar a cosmovisão taurepang por meio das histórias de origem presentes na literatura da etnia, fundamentando-se em quatro livros escritos por autores indígenas em sua língua nativa, trazidos diretamente da Venezuela.
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Fonte: curitibainforma.com.br
Segundo dados do portal Povos Indígenas no Brasil, a maioria dos taurepang vive na savana venezuelana, mas também há comunidades na Guiana e na região norte do estado brasileiro de Roraima, fronteira entre os três países. A pesquisa inclui elementos como mitos, a relação espiritual com a natureza, a oralidade e a memória coletiva da etnia, destacando a riqueza e complexidade da literatura pemon taurepang, que não segue as categorias tradicionais ocidentais de gêneros literários.
Perspectiva decolonial e valorização cultural
A professora Cristine Fortes Lia, do Programa de Pós-Graduação em Letras e Cultura da UCS, ressalta que o trabalho de Javier oferece uma visão decolonial ao dar protagonismo aos povos originários. “O estudo minimiza a distância entre a visão ocidental e a indígena, proporcionando um contato profundo com saberes tradicionais e promovendo o reconhecimento da diversidade cultural”, comenta.
Além disso, a dissertação traz elementos visuais que reforçam a identidade da etnia, como a capa ilustrada pelo artista Nino Márques, que representa uma cadeia montanhosa significativa para os taurepang. Javier também destaca que as narrativas indígenas abordam diversos temas simultaneamente, incluindo a presença da água em seu sentido ecológico, personagens míticos e a conexão entre céu, terra, passado e presente.
Continuidade acadêmica e compromisso com a cultura indígena
Após a aprovação do mestrado, Javier já se prepara para iniciar o doutorado em Letras e Cultura na UCS, com foco nos saberes taurepang. Ele pretende incentivar grupos indígenas locais, como os kaingang, a desenvolverem suas próprias pesquisas sobre histórias de origem e cosmovisões culturais.
“Estou me integrando aos kaingang aos poucos, promovendo trocas e estimulando que estruturam suas cosmovisões da mesma forma”, afirma o professor. Para ele, a pesquisa voltada à cultura indígena é uma forma de ampliar o repertório dos estudos literários decoloniais e preservar identidades culturais que ainda carecem de maior visibilidade acadêmica.
Javier planeja disponibilizar a dissertação na internet nas próximas semanas, ampliando o acesso ao público e fomentando o diálogo intercultural. “Este trabalho é uma amostra para que eu possa ir até outros grupos indígenas e dizer ‘essa é a minha cultura, qual é a sua?’, promovendo trocas e fortalecimento cultural”, conclui.
