Tradição e Cultura em Movimento
No Pará, a arte dos artesãos que perpetuam o Círio de Nazaré ultrapassa fronteiras, chegando a outros estados por meio de peças que carregam história e devoção. Ronaldo Santos, artesão dedicado à confecção e restauração de berlindas, é um exemplo dessa ligação cultural. Criador de uma berlinda exclusiva que seguirá de Belém para Montes Altos, no Maranhão, ele incorpora elementos da cultura indígena Krikati, reforçando a identidade e a fé locais.
Montes Altos abriga uma comunidade marcada tanto pela devoção a Nossa Senhora de Nazaré quanto pela presença do povo originário Krikati. Para homenagear essa herança, a berlinda traz entalhes em madeira com palavras na língua Krikati: “Aquēhn Cateh” (amor), “A’carēhc” (paz), “Pa’cohneh’cym” (união) e “Pajacryyh” (felicidade). Essas inscrições buscam inspirar um olhar de comunhão e valorização dos povos indígenas, segundo o padre Luzimar Moura, pároco da Paróquia Santa Ana, onde acontecerá a sexta edição do Círio com essa berlinda.
Inclusão e Respeito às Raízes Indígenas
Segundo o padre Luzimar, a berlinda simboliza a vontade da paróquia de incluir todos os moradores, especialmente os primeiros habitantes da região. “É uma homenagem e um gesto de proteção espiritual, aproximando a comunidade indígena das celebrações”, explica. Uma visita ao cacique da Aldeia São José garantiu a autorização para essa iniciativa, que reforça o respeito e a valorização cultural.
A conexão entre Pará e Maranhão que permitiu essa criação singular surgiu a partir de um vídeo no YouTube. Maurício Moura, embaixador do Círio no Maranhão, descobriu o trabalho de Ronaldo e propôs a confecção da berlinda em tamanho quase original, o que o artesão aceitou prontamente.
Processo Artesanal e Ensino
Em 2022, Ronaldo iniciou a confecção da primeira berlinda com apoio da família e doou o modelo para o Tocantins devido ao seu tamanho. A segunda berlinda, construída junto com a esposa, o irmão e dois alunos do projeto “Do Lixo ao Luxo” — que ensina técnicas manuais — será usada pela primeira vez na procissão do Círio e também como Glória para a Imagem Peregrina.
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O artesão escolheu o cedro, madeira de forte significado bíblico, para confeccionar a berlinda. Segundo a tradição, a cruz que Jesus carregou era feita desse material, considerado pesado, mas que simbolicamente se tornou leve. O processo de criação envolve cerca de 45 dias, incluindo entalhamento, montagem, pintura e aplicação de ouro, passando por uma fase de envelhecimento para preservar o acabamento original.
Durante a produção, os alunos do projeto participam ativamente, aprendendo cortes e desenhos inspirados em referências visuais, o que amplia a transmissão de conhecimento artesanal.
Interação Cultural e Atualizações
Em 2025, durante uma viagem para retocar a pintura da primeira berlinda, Ronaldo conversou com o padre Luzimar e sugeriu a inclusão de palavras indígenas na peça. O cacique autorizou e forneceu os termos, fortalecendo ainda mais o vínculo cultural.
Atualmente, a berlinda de 2026 está na fase final, com a instalação das fitas de LED alimentadas por bateria de carro. Ainda serão incorporados vidros laterais e uma porta para a entrada da Imagem Peregrina, garantindo funcionalidade e beleza para a procissão.
Círio de Montes Altos: Fé e Identidade
Realizado no segundo domingo de setembro, o Círio de Montes Altos tem programação que começa no dia 5 com a missa de apresentação do manto, segue no dia 12 com a procissão luminosa do traslado e culmina no dia 13 com a procissão do Círio e Santa Missa.
João Maurício Martins, paraense de Bragança e embaixador do festejo em Imperatriz há 46 anos, recorda que o Círio local foi instituído em 2021 após visita da Imagem Peregrina a Montes Altos, durante a pandemia. Desde então, a festividade mantém conexão direta com a tradição paraense.
Assim como em Belém, os devotos utilizam a mesma corda produzida para a capital paraense e o manto da imagem é confeccionado por mulheres locais, reforçando a participação da comunidade na celebração. A presença indígena confere autenticidade e destaca a mensagem de inclusão do evangelho, como aponta João Maurício.
O Círio em Montes Altos permite que muitos devotos cumpram suas promessas sem precisar viajar a Belém, ampliando o alcance da fé e da tradição regionalmente.
O artesanato, a cultura indígena e a devoção se entrelaçam nessa festa que segue celebrando a identidade e a fé sem perder a conexão com suas origens.
