A queda da cobertura climática e seu impacto real
Uma recente pesquisa da Grist, organização conhecida pelo jornalismo ambiental, destacou um dado preocupante: a cobertura da imprensa sobre o clima no mundo registrou uma queda de 38% em 2025, comparada ao pico alcançado em 2021. Esses números, baseados em dados da Universidade do Colorado em Boulder, são acompanhados por outros indicadores, como a redução de 35% no tempo dedicado a temas climáticos pelas principais emissoras de TV abertas dos Estados Unidos, como CBS, ABC e NBC, segundo a Media Matters for America.
Apesar desses índices darem um panorama da diminuição do destaque dado ao assunto, eles não capturam toda a complexidade do problema. O jornalismo climático representa, em média, apenas 0,55% da cobertura total dos principais veículos americanos, com pouca variação nos últimos 40 anos, segundo estudo internacional recente. Essa minúscula fatia revela que, mesmo em períodos de maior atenção, o tema já vinha sendo subnotificado há décadas.
Quem são os jornalistas que fazem a cobertura climática?
Mais do que números, o que realmente importa para garantir um jornalismo climático de qualidade é a presença de repórteres e editores especializados. Nos últimos anos, houve uma expansão das equipes dedicadas em veículos como Associated Press, National Public Radio e The Washington Post. Contudo, a tendência recente é reversa: cortes significativos vêm sendo realizados, comprometendo a profundidade e a continuidade das reportagens.
Em 2025, a CBS News perdeu quase toda sua equipe de cobertura climática após demissões em massa promovidas pela Paramount, ficando com apenas um repórter para o tema. Pouco tempo depois, esse único profissional também foi desligado, deixando a emissora sem nenhum especialista no assunto. De forma ainda mais drástica, o Washington Post cortou 74% de sua equipe dedicada ao clima, eliminando 14 jornalistas especializados.
A National Public Radio (NPR) também sofreu perdas. Em maio, demitiu o editor-chefe de sua editoria de clima durante uma reorganização provocada por cortes no financiamento público, além de reduzir em dois o número de profissionais especializados na área. Atualmente, os oito repórteres e editores restantes foram incorporados à editoria nacional, o que representa uma diluição do foco exclusivo ao tema.
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O desafio da cobertura climática nas redações
Cobrir o clima não é tarefa simples. O tema exige conhecimento sobre aspectos políticos, econômicos, culturais e de políticas públicas, o que torna fundamental o trabalho de jornalistas que dominam essas complexidades. A ideia de que outros repórteres podem assumir o tema como uma tarefa extra, além de suas funções habituais, não se sustenta diante da necessidade de aprofundamento e rigor técnico.
Além disso, veículos que mantêm equipes especializadas tendem a relacionar eventos extremos, como ondas de calor, diretamente às mudanças climáticas e a discutir soluções efetivas. Já a cobertura feita por jornalistas generalistas, muitas vezes, limita-se a menções superficiais, sem o devido aprofundamento.
Jornalismo climático vai além de palavras-chave
O jornalismo climático não se resume a expressões como “mudanças climáticas” ou “aquecimento global”. Reportagens importantes, como a do Wall Street Journal sobre tsunamis glaciais no Nepal, mostram o impacto do aquecimento global sem usar termos específicos. A atenção a temas como impactos ambientais de data centers ou infraestrutura energética também cresce, mesmo que nem sempre explicitamente conectados ao clima.
O diferencial está no conhecimento e na especialização dos profissionais que selecionam pautas, entrevistam fontes e elaboram perguntas que aprofundam a compreensão do tema. Por isso, a presença de equipes dedicadas é fundamental para garantir qualidade e relevância.
O futuro do jornalismo climático e seu papel no cotidiano
Apesar dos cortes recentes, ainda existem equipes dedicadas em veículos como Los Angeles Times, New York Times e organizações especializadas como Grist e Inside Climate News. Além disso, o jornalismo independente e de criadores de conteúdo, como o videopodcast Heated, criado por jornalistas desligadas de grandes redações, ganha espaço.
O apoio institucional à cobertura climática, porém, ainda é instável, refletindo décadas de investimentos irregulares. Tratar a cobertura ambiental como algo opcional ou secundário é um erro, considerando que o público demanda informações sobre o tema que afeta diretamente a vida nas cidades e o cotidiano das pessoas.
O grande desafio é estabelecer caminhos sustentáveis para que jornalistas especializados possam continuar seu trabalho, seja dentro das grandes redações ou como independentes. O futuro coletivo depende da manutenção e do fortalecimento desse jornalismo, que é essencial para informar e preparar a sociedade diante das mudanças climáticas.
Texto por Daniel Moreira, que acompanha de perto as mudanças no jornalismo climático e seu impacto no cotidiano urbano.
