O impacto da tecnologia na rotina das quebradeiras de coco
Mais de 300 mil mulheres no Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará mantêm viva uma tradição que envolve extrair o coco babaçu, quebrar a casca e transformar a palmeira em produtos como azeite, sabão e artesanato. Conhecidas como quebradeiras de coco, essas trabalhadoras rurais preservam uma atividade cultural reconhecida oficialmente pela lei nº 15.431/2026, que valoriza essa prática como manifestação cultural nacional.
No Maranhão, a introdução da tecnologia tem transformado essa rotina. Cursos de letramento digital e marketing oferecem às quebradeiras ferramentas para ampliar a comercialização dos produtos derivados do babaçu, alcançando consumidores por meio da internet e fortalecendo a independência financeira dessas mulheres.
Formação digital como ferramenta de empreendedorismo
Railane Rimá, nascida no interior do Maranhão, cresceu observando a mãe e as avós na atividade de quebrar coco, que sustentou sua família. Aos 30 anos, teve contato com o universo da tecnologia através do curso de letramento digital e marketing promovido pela Eneva e SoulCode, dentro do programa Elas Empreendedoras, que visa ampliar oportunidades de trabalho para mulheres em regiões próximas às usinas de gás natural da Eneva.
Em Capinzal do Norte, município maranhense com cerca de 11 mil habitantes, o projeto foi direcionado para a Associação das Mulheres Quebradeiras de Coco (Amuquec). Na chegada da iniciativa, aproximadamente 90% das mulheres não sabiam ler nem escrever. Com o apoio da prefeitura, elas foram encaminhadas à Educação de Jovens e Adultos (EJA) antes de iniciar o letramento digital. O objetivo era preparar essas mulheres para utilizar a internet na comercialização direta dos produtos do babaçu, reduzindo a dependência de intermediários e agregando valor ao que produzem.
Tecnologia e inclusão digital como alavancas para autonomia
Para Elizabeth Teles, gerente de Responsabilidade Social da Eneva, a tecnologia representa uma porta para o acesso à informação, direitos e conhecimento, funcionando como uma ferramenta de inclusão social. A inteligência artificial, por exemplo, entra como um mecanismo de acessibilidade para essa comunidade.
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Carmela Borst, CEO da SoulCode, destaca que o projeto também enfrentou a exclusão digital que ainda é mais intensa entre mulheres fora dos grandes centros urbanos. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) reforçam esse cenário: menos da metade da população brasileira possui habilidades digitais avançadas. A capacitação visa não apenas criar produtoras de conteúdo, mas transformar a tecnologia em instrumento de geração de renda e autonomia.
Experiências reais e transformações concretas
Em uma formatura recente no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) de Capinzal do Norte, 30 mulheres concluíram a capacitação. Entre elas, Cícera de Paiva Melo, 58 anos, que cresceu na zona rural e se juntou à associação de quebradeiras em 2008. Para ela, o contato com computadores foi uma novidade que abriu novas possibilidades. Agora, além das vendas presenciais em feiras, a associação recebe pedidos pela internet, utilizando plataformas como Mercado Livre, WhatsApp e Instagram para ampliar o alcance.
Outro exemplo é Milena Souza Silva, de 21 anos, que iniciou sua loja de roupas MA Outlet em 2024 e aproveitou o curso para estruturar sua presença digital e identidade de marca. Seu próximo passo é estabelecer uma loja física, fortalecendo seu empreendimento.
Preservação cultural aliada à inovação
Railane vê na tecnologia uma forma de expandir a tradição do babaçu para além de Capinzal do Norte, valorizando a cultura maranhense e nordestina. Ela planeja abrir uma empresa focada em programação, utilizando a inteligência artificial como ferramenta de aprendizado e crescimento profissional.
Essa nova geração de mulheres, incluindo filhas e netas das quebradeiras, tem participado das formações e auxiliado na administração das vendas online e comunicação digital. Para Elizabeth Teles, a inclusão digital não substitui a cultura tradicional, mas fortalece sua perpetuação e alcance.
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Fonte: amapainforma.com.br
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