Imperatriz Leopoldinense e a Memória do Maracatu
A Nação do Maracatu Porto Rico, uma das mais emblemáticas do carnaval pernambucano, será homenageada de forma especial no desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro em 2027. O tema “A Memória do rei e o sumiço de Dona Júlia” promete cativar o público, contando a intrigante história do desaparecimento de uma calunga, figura central na cultura do maracatu que ficou sumida por três décadas.
Fundada em setembro de 1916 no sítio Palmeirinha, localizado na cidade de Palmares, Pernambuco, a Nação do Maracatu Porto Rico possui uma rica história de resistência. Embora tenha suas raízes na Zona da Mata Sul, sua presença é forte no Recife, onde representa a tradição cultural do carnaval.
Para dar vida a essa narrativa, a escola de samba escolheu o renomado carnavalesco Leandro Vieira, conhecido por sua habilidade em contar histórias e sua pesquisa minuciosa sobre os temas que aborda. Com o enredo que revela a trajetória de Dona Júlia, Vieira promete levar aos sambistas e ao público uma reflexão sobre a ancestralidade e a memória cultural.
A História de Dona Júlia e o seu Sumiço
A narrativa gira em torno do sumiço de Dona Júlia, a calunga que, durante a década de 1970, foi levada para um museu. A boneca, criada para guardar os axés do Maracatu Porto Rico, desapareceu em 1978 e, mesmo após tentativas dos representantes do maracatu para reavê-la em 1980, sua localização permaneceu desconhecida por muito tempo.
O reencontro com Dona Júlia ocorreu de maneira inusitada em 2014, durante os preparativos para o carnaval. A calunga foi deixada em um terreiro em Olinda por um estudante, que alegou que a boneca “assombrava” sua residência. O destino da calunga se tornou um grande mistério até que, em um telejornal local, a história da boneca sem procedência foi divulgada, resultando em sua recuperação após ser reconhecida por integrantes do Maracatu Porto Rico.
A assessoria da escola destacou que a descoberta desse enredo se deu a partir das pesquisas de Leandro Vieira sobre a cultura popular brasileira, que revelaram a importância da calunga para a história do maracatu e seu simbolismo espiritual.
O Valor da Ancestralidade
O enredo do carnaval vai além de uma simples narrativa; ele amplia a compreensão sobre as tradições dos maracatus de baque virado. Segundo Vieira, essas tradições são fundamentais para a manutenção de rituais que envolvem a coroação dos reis do Congo e aspectos espirituais que nem sempre são bem compreendidos, como o culto aos eguns e o encantamento dos objetos sagrados.
A calunga protagonista do enredo foi confeccionada sob a orientação do babalorixá Eudes Chagas, que a criou como um dos objetos sagrados do maracatu onde foi coroado rei em 1967. Com 60 anos, a boneca guarda a essência do egun de Maria Júlia do Nascimento, uma conhecida rainha do maracatu que faleceu em 1962 e é popularmente chamada de Dona Santa.
O que são Calungas?
Calungas são figuras essenciais nas tradições dos maracatus pernambucanos, sendo consideradas elementos sagrados que representam a proteção dos ancestrais. O seu retorno, como no caso de Dona Júlia, é um momento de grande celebração, marcando a reiniciação espiritual de seus axés e a volta às ruas durante o carnaval.
O enredo que a Imperatriz Leopoldinense apresentará em 2027 será, portanto, um retrato da trajetória de uma dessas bonecas sagradas, do seu desaparecimento ao reencontro, unindo pesquisa, tradição e a rica cultura afro-brasileira. A escola será a última a se apresentar na segunda-feira de Carnaval, programada para o dia 8 de fevereiro, e promete emocionar com essa história que resgata as memórias do Maracatu Porto Rico.
