O que está por trás das mudanças no regime de chuvas da Amazônia?
Pesquisadores de várias partes do mundo, incluindo Brasil, China e Austrália, vêm investigando há anos como a ação humana ameaça a Floresta Amazônica e, consequentemente, o clima regional. Uma das maiores preocupações reside no limite que a floresta pode suportar em termos de desmatamento antes que seu sistema de regulação das chuvas entre em colapso.
Estudos anteriores apontam que, quando o desmatamento ultrapassa entre 30% e 40% da área regional, o volume de precipitações sofre uma queda drástica. Nos últimos 50 anos, a Amazônia perdeu cerca de 20% de sua cobertura vegetal para dar lugar a lavouras e pastagens. Projeções indicam que até 2050 essa perda pode chegar a quase 45%. Porém, essa diminuição não afeta o clima de maneira uniforme, pois os impactos variam conforme a localização e o tipo de uso da terra.
O papel das mudanças climáticas e do uso da terra no sul da Amazônia
Além do desmatamento, as alterações climáticas globais também pesam no delicado equilíbrio da região. Segundo o Sexto Relatório de Avaliação do IPCC, a parte sul da Amazônia enfrentará secas mais longas e queda nas chuvas devido ao aquecimento global. Ainda assim, o efeito conjunto dessas mudanças climáticas com a perda da floresta sobre o regime de chuvas não havia sido explorado com profundidade até o recente estudo publicado na Geophysical Research Letters, que contou com a colaboração de pesquisadores de diferentes países.
O estudo “Climate Change Amplifies Rainfall Sensitivity to Deforestation in the Southern Amazon” investigou como as mudanças no clima e nos padrões regionais de uso da terra vão interagir até 2050, alterando a precipitação na região sul do bioma amazônico.
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Como o avanço da agropecuária e o clima podem reduzir as chuvas
Para entender essas dinâmicas, os pesquisadores combinaram cenários climáticos globais — um de desenvolvimento sustentável com baixas emissões de gases do efeito estufa e outro baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis com altas emissões — com projeções regionais de uso da terra. No cenário “business-as-usual” (BAU) do modelo SimAmazonia, a expansão da fronteira agrícola segue sem grandes mudanças na fiscalização ambiental.
Na região sul da Amazônia, o modelo prevê que a cobertura florestal cairá de 49% em 2020 para 39% em 2050, enquanto as áreas destinadas à agricultura e pastagens aumentarão, respectivamente, cerca de 5% e 6 pontos percentuais no mesmo período. Essa transformação no uso do solo já impacta diretamente o regime de chuvas da região.
Previsões de queda nas precipitações até meados do século
Quando considerada apenas a mudança no uso da terra, a precipitação média anual na região deve cair 1,7%, o que equivale a uma redução de 42,1 mm. Se forem levadas em conta apenas as mudanças climáticas, a queda é mais acentuada: 12,3% (295,4 mm) no cenário de baixas emissões e 9,4% (225,1 mm) no cenário de altas emissões.
Ao combinar os dois fatores, a redução pode chegar a 13,9% (337,5 mm) no cenário mais sustentável e 10,9% (267,2 mm) no cenário de altas emissões. Contudo, o estudo alerta que no cenário de altas emissões as chuvas ficam mais irregulares, com aumento em pontos isolados e diminuição na maioria das áreas, ampliando o desequilíbrio hídrico regional.
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O impacto direto no cotidiano e na agricultura da Amazônia
Esses dados indicam que as mudanças climáticas tornam o regime de chuvas mais sensível à perda da floresta. Isso significa que o avanço do desmatamento, somado ao aquecimento global, compromete ainda mais o abastecimento de água e a produtividade agrícola, dois pilares essenciais para a economia e a vida das comunidades locais.
O agravamento do cenário traz riscos concretos para o agronegócio, que depende da regularidade das chuvas para manter colheitas e pastagens. Além disso, a segurança hídrica da população corre perigo, especialmente em áreas já vulneráveis.
Por que é urgente frear o desmatamento na Amazônia
O estudo reforça uma conclusão clara: conter o desmatamento é fundamental para preservar os recursos hídricos e garantir a competitividade da agricultura regional e nacional. Sem essa medida, o cenário futuro da Amazônia e do Brasil será marcado por chuvas cada vez mais escassas e irregulares, afetando diretamente a vida das pessoas e a economia local.
O professor Britaldo Soares Filho, um dos autores do estudo, destaca que não possui nenhum vínculo com empresas ou organizações que possam se beneficiar da pesquisa, garantindo a imparcialidade do trabalho.
