El Niño avança e acende alerta para eventos climáticos extremos
O El Niño já está em andamento e pode se tornar um dos fenômenos mais intensos já registrados, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). O alerta foi confirmado nesta quinta-feira, apontando para a possibilidade de um episódio histórico nos próximos meses, capaz de agravar ondas de calor, enchentes, secas e incêndios em várias partes do mundo.
Caracterizado pelo aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico próximo à linha do Equador, o El Niño modifica padrões climáticos globais. A NOAA indica 63% de chance de que o fenômeno alcance força suficiente entre o fim do outono e o início do inverno do Hemisfério Norte — período que corresponde a novembro e dezembro no Brasil — para figurar entre os maiores eventos desde 1950, quando começaram os registros modernos.
Impactos no clima global e riscos à economia
Meteorologistas destacam que o El Niño deve elevar ainda mais as temperaturas em um planeta já aquecido pelo efeito estufa, impulsionado pela queima de combustíveis fósseis. As projeções indicam que este evento pode rivalizar ou até superar o episódio de 1997, que causou bilhões de dólares em prejuízos devido a ondas de calor, enchentes, secas, tornados e incêndios florestais.
— As águas quentes profundas associadas ao El Niño liberam calor extra para a superfície, alimentando uma série de eventos extremos ao redor do mundo — explicou Abby Frazier, cientista do clima da Universidade Clark, à Associated Press, reforçando que os impactos podem se intensificar rapidamente.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou o fenômeno como um “alerta climático urgente” e destacou que ele pode agravar ainda mais o aquecimento global.
Variabilidade regional: onde o El Niño pode causar mais transtornos
Os efeitos do El Niño variam conforme a região. No Atlântico, o fenômeno tende a reduzir a atividade dos furacões, enquanto no Pacífico aumenta essa atividade. Isso significa que a costa leste dos Estados Unidos e estados próximos ao Golfo do México podem enfrentar temporadas menos intensas, ao passo que o Havaí e outras ilhas ficam mais vulneráveis.
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Enquanto algumas áreas, como o Oriente Médio, podem receber chuvas benéficas após períodos de seca, outras enfrentam riscos maiores. A costa oeste da América do Sul costuma registrar chuvas fortes, enchentes e verões muito quentes durante o El Niño. Na Índia, espera-se ondas de calor severas, e a Austrália pode enfrentar secas prolongadas, incêndios florestais e temperaturas elevadas.
No nordeste da África, a previsão é de mudança brusca entre secas intensas e chuvas potencialmente perigosas, conforme o cientista Muhammad Azhar Ehsan, da Universidade Columbia. Nos Estados Unidos, o Sul do país pode enfrentar tempestades mais fortes e maior volume de chuva, embora algumas áreas agrícolas possam se beneficiar.
Sinais preocupantes e desafios econômicos globais
Apesar de alguns impactos localizados positivos, o aumento da temperatura gerado pelo El Niño pode afetar a economia global. Marshall Burke, economista climático da Universidade Stanford, afirmou à AP que há evidências de que o crescimento econômico dos EUA desacelera quando as temperaturas ficam acima da média.
Além disso, a escassez de fertilizantes devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz e o aumento dos preços da energia, resultantes de conflitos na Ucrânia e no Irã, pressionam ainda mais os orçamentos de diversos países.
— Podemos observar aumento da pobreza, desnutrição, conflitos e endividamento — alertou Laurie Laybourn, líder da Strategic Climate Risks Initiative, centro de estudos no Reino Unido.
Previsões para o Brasil e duração do fenômeno
O Brasil acompanha o fenômeno de perto, especialmente após enchentes históricas no Rio Grande do Sul há dois anos. A intensidade dos impactos locais dependerá da velocidade com que o El Niño se desenvolve. Normalmente, o fenômeno surge no verão, atinge o pico no fim do outono ou começo do inverno e enfraquece na primavera.
Porém, especialistas como Muhammad Azhar Ehsan projetam que o pico deste El Niño pode acontecer um ou dois meses antes do habitual. Cientistas também destacam que episódios muito fortes tendem a durar mais tempo, o que aumenta o risco de impactos prolongados para a mobilidade urbana, agricultura e serviços.
Histórico e lições do passado para o presente
A história mostra que eventos intensos de El Niño, como o de 1877, agravam fragilidades existentes. Naquele ano, o fenômeno provocou secas extremas em regiões como Brasil, sul da África e China. O sul da Índia foi um dos mais afetados, com relatos de fome severa e sofrimento humano.
Fatores humanos, como a gestão colonial britânica da Índia, aumentaram o número de vítimas, que chegou a dezenas de milhões. Na época, a falta de conhecimento impedia a compreensão do fenômeno, que só começou a ser estudado com mais profundidade na década de 1960, quando Jacob Bjerknes, meteorologista da Universidade da Califórnia, estabeleceu a relação entre o aquecimento do Pacífico e os padrões climáticos globais.
Desde então, o monitoramento evoluiu, mas o desafio segue sendo preparar as cidades e regiões para os impactos que o El Niño traz, especialmente diante do aquecimento global que pode intensificar esses episódios.
Para o leitor de Nova Imperatriz e região, o alerta é para acompanhar as informações oficiais, entender os riscos à mobilidade e aos serviços públicos, e se preparar para possíveis mudanças no clima que podem afetar o dia a dia nos próximos meses.
