Perfil da Odontologia Brasileira em Foco
Com a intenção de enriquecer as discussões sobre os desafios que envolvem a saúde bucal, o Ministério da Saúde lançou, nesta segunda-feira (4), um levantamento inédito sobre o perfil dos profissionais de odontologia no Brasil. Realizado em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o estudo visa identificar os principais obstáculos enfrentados pela área, auxiliar na formulação de políticas públicas e promover a troca de conhecimentos entre especialistas, gestores e a sociedade.
Os dados recuperados revelam que o Brasil possui 665.365 profissionais de saúde bucal, sendo que 415.938 são cirurgiões-dentistas, quase o dobro das demais categorias. A densidade nacional é de 19,55 dentistas para cada 10 mil habitantes, embora haja uma considerável desigualdade regional. O Sudeste se destaca pela maior concentração desses profissionais, enquanto o Norte apresenta os números mais baixos.
Desafios Estruturais e a Pirâmide Invertida
O estudo, intitulado Sociodemografia e Mercado de Trabalho da Odontologia no Brasil, marca o primeiro volume da série demográfica da área e mostra um crescimento acelerado do número de profissionais, assim como uma concentração geográfica e desafios estruturais. Um ponto alarmante é a chamada “pirâmide invertida”, que indica uma predominância de profissionais de nível superior em contraste com a escassez de técnicos e auxiliares, algo que pode impactar a qualidade e a eficiência do atendimento odontológico.
Felipe Proenço, secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, ressaltou que o lançamento deste levantamento reafirma o compromisso do Ministério com a transparência e a utilização de evidências. “Estamos ampliando o acesso a dados e colocando essas informações para fomentar o debate público e ajudar na formulação de políticas que fortaleçam a odontologia no país”, declarou.
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O secretário também mencionou iniciativas voltadas à formação de profissionais técnicos, como o programa Formatec-SUS, que faz parte de um conjunto de ações para melhorar a qualificação dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).
Predominância Feminina e Desafios Etários
Na área clínica, a força de trabalho é majoritariamente feminina: as mulheres representam 65,5% dos cirurgiões-dentistas, 93,8% dos técnicos e 96,4% dos auxiliares. No entanto, nas áreas laboratoriais de prótese dentária, a predominância é masculina.
O perfil etário dos profissionais também varia conforme a categoria. Cirurgiões-dentistas e técnicos estão mais concentrados entre 30 e 39 anos, enquanto os auxiliares tendem a ser mais velhos. Os profissionais da prótese, por sua vez, apresentam um envelhecimento mais acentuado, com uma significativa parte da força de trabalho acima dos 50 anos, o que pode indicar desafios futuros em termos de reposição.
Expansão e Desigualdade no Mercado de Trabalho
O número de cursos de odontologia cresceu impressionantes 617,9% entre 1991 e 2023, ultrapassando a marca de 650 cursos, sendo quase 90% deles no setor privado. No mercado de trabalho, a expansão foi notável entre 2003 e 2012, seguida de um período de estagnação. Contudo, em 2023, houve uma recuperação, com um crescimento de 11,4% nos vínculos formais.
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Apesar desse panorama, a distribuição entre o número de profissionais e a quantidade de vagas disponíveis é desigual. Para os cirurgiões-dentistas, há apenas 0,17 vínculo formal por profissional, indicando uma predominância de trabalho autônomo ou informal. O setor público é responsável por 80,9% dos vínculos dos dentistas, enquanto técnicos e auxiliares atuam, na maioria, no setor privado. Além disso, há indícios de precarização, como o aumento de contratos temporários e salários baixos, especialmente entre técnicos e auxiliares.
Interiorização e Necessidade de Equipes de Apoio
Embora o Sudeste continue a concentrar a maioria dos empregos, as regiões Norte e Nordeste observaram um crescimento recente, apontando para uma interiorização da força de trabalho. A maior parte das contratações (aproximadamente 90%) refere-se a reempregos, indicando um mercado relativamente fechado para novos profissionais.
Outro aspecto a se considerar é a disparidade entre dentistas e suas equipes de apoio: em 2024, havia mais de 166 mil dentistas em atividade, em comparação com apenas 13,5 mil técnicos e 53,9 mil auxiliares, o que pode comprometer tanto a produtividade quanto a qualidade do atendimento.
Crescimento da Especialização e Lacunas no Atendimento
Atualmente, cerca de 27,6% dos dentistas possuem especialização, com maior concentração nas áreas de Ortodontia, Implantodontia e Endodontia, especialmente nas regiões Sudeste e Sul. Apesar de um aumento de 62% no número de especialistas entre 2013 e 2024, áreas fundamentais para a saúde pública, como Patologia Oral e Prótese Bucomaxilofacial, ainda carecem de profissionais, evidenciando lacunas no atendimento às necessidades do país.
Ações do Ministério da Saúde em Saúde Bucal
As iniciativas do Ministério da Saúde voltadas para a saúde bucal são organizadas pela Política Nacional de Saúde Bucal, também conhecida como Brasil Sorridente. Esta política garante atendimento odontológico gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e abrange desde a Atenção Primária até serviços especializados e hospitalares.
A rede de saúde bucal conta com equipes nas Unidades Básicas de Saúde, Centros de Especialidades Odontológicas (CEO), Serviços de Especialidades em Saúde Bucal (Sesb), Laboratórios Regionais de Prótese Dentária (LRPD) e Unidades Odontológicas Móveis. Em 2024, a política recebeu o maior investimento da sua história, com ênfase na ampliação da cobertura e na qualificação da Rede de Atenção à Saúde Bucal (RASB).
Na Atenção Primária, as equipes atuam em promoção, prevenção e cuidados contínuos, realizando ações como aplicação de flúor, restaurações e extrações. Já os serviços especializados tratam de procedimentos mais complexos, como endodontia, cirurgias e diagnósticos de câncer bucal. A rede também oferece a produção gratuita de próteses e atendimento em áreas remotas, como comunidades indígenas e quilombolas.
Fortalecido pela Lei nº 14.572 em 2023, o Brasil Sorridente agora é considerado uma política de Estado. Entre as suas estratégias estão o Tratamento Restaurador Atraumático (TRA), a odontologia hospitalar e ações do Programa Saúde na Escola. Além disso, iniciativas de formação e qualificação profissional buscam reduzir desigualdades regionais e ampliar o acesso à saúde bucal em todo o país.
