O Legado de Padre Josimo e a Violência no Campo
Neste ano, completam-se quarenta anos do assassinato de Josimo Morais Tavares, o padre que se destacou pela defesa dos direitos dos pobres no Brasil. Em um cenário de aumento da violência no campo, a figura de Josimo permanece viva, lembrando-nos da constante luta contra a opressão e a desigualdade. Ele foi cruelmente assassinado em 10 de maio de 1986, em Imperatriz, no Maranhão, por defender os direitos à terra, dignidade e vida para os marginalizados. Sua morte é um símbolo da resistência contra a aliança histórica que une latifundiários, pistolagem e poder político, um conjunto que ainda persiste no Brasil contemporâneo.
Apesar das transformações tecnológicas e da sofisticação do agronegócio, o modus operandi dos que buscam concentrar terras permanece inalterado: silenciar vozes para acumular riquezas. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) revela que a memória de Josimo se faz presente diariamente no campo brasileiro, onde a luta por terra resulta em uma onda crescente de conflitos e assassinatos. O relatório intitulado “Conflitos no Campo Brasil 2025” aponta para 1.593 contestações, das quais 1.186 são disputas por terras, envolvendo mais de 158 mil famílias afetadas. Em relação ao ano anterior, o número de assassinatos dobrou, passando de 13 para 26, evidenciando uma crise alarmante que vai além de números: são vidas ceifadas.
A Crueza da Realidade no Campo
Leia também: Homenagem a Manthura Zara: Uma Protagonista do Agronegócio no Dia da Mulher
Leia também: Crescimento do Agronegócio em Santa Catarina: R$ 74,9 Bilhões em 2025
As estatísticas revelam uma realidade brutal, com corpos de indígenas, quilombolas, posseiros e pequenos agricultores sendo atacados ao tentarem preservar seus direitos e seus territórios. Em 2025, todos os assassinatos registrados pela CPT tinham relação direta com conflitos por terra, e a região da Amazônia Legal foi cenário de 16 dessas mortes. Nesse contexto, a figura de Padre Josimo ressurge, encarnando as lutas dos camponeses ameaçados. Sua essência é visível na liderança indígena cercada por garimpeiros no Pará e nas comunidades que enfrentam a pressão do agronegócio em diversas partes do Brasil.
Os novos agentes da violência no campo não se apresentam mais com pistolas e chapéus de couro. Agora, eles podem ser encontrados em ternos, atuando em fundos de investimento e em campanhas políticas, sempre mantendo o mesmo objetivo: a concentração de terras nas mãos de poucos. O relatório da CPT destaca que o Cerrado se transformou em uma “zona de sacrifício” para o agronegócio, com a incidência de grilagem e violação dos direitos humanos se intensificando. O Maranhão, onde Josimo entregou sua vida, continua liderando os conflitos no campo, refletindo a continuidade da luta por justiça social.
Um Chamado à Ação e Consciência
Leia também: A Pinheiros AgroShow: O Maior Evento do Agronegócio no ES se Reinventa
Leia também: Brasil e Uruguai Aprofundam Cooperação no Agronegócio para Expandir Mercados
Fonte: soudejuazeiro.com.br
A morte de Padre Josimo não é um evento isolado, mas parte de uma longa genealogia de mártires que lutaram pela terra e pelos direitos dos oprimidos, como Chico Mendes e Dorothy Stang. A violência no campo é estrutural, enraizada em um modelo econômico que prioriza a mercantilização da natureza e alimenta a desumanização dos pobres. A CPT alerta que, enquanto trabalhadores continuam sendo submetidos a condições análogas à escravidão, a luta por justiça se intensifica. Em 2025, foram registrados 159 casos de trabalho escravo rural, evidenciando a persistência de práticas que remetem ao passado.
Quando os recursos hídricos são envenenados ou desviados para o lucro privado, a figura de Josimo volta a ser ferida. O aumento da violência relacionada à água é evidente, com 148 ocorrências em 2025 que envolvem mais de 47 mil famílias. A CPT também aponta para o deslocamento de comunidades afetadas por grileiros, com mais de 14 mil famílias ameaçadas de expulsão. A pedagogia do medo ainda é utilizada como método de controle e dominação em diversas regiões do país.
Reflexão e Mobilização: O Legado de Josimo
Quarenta anos após a sua morte, a pergunta que Josimo deixou ecoa fortemente: “Se eu me calar, quem os defenderá?”. O escândalo não é apenas a morte de um padre, mas a continuidade dos mecanismos que mataram Josimo, que ainda operam normalmente na sociedade. Defensores dos direitos dos mais vulneráveis enfrentam riscos constantes, e os relatos da CPT servem como um alerta para a necessidade de resistência e mobilização. Recordar Josimo não deve ser um ato apenas simbólico, mas um chamado à ação para aqueles que desejam confrontar a injustiça e a opressão.
No cenário atual, a luta por direitos básicos continua, e a figura de Padre Josimo está viva nas ocupações camponesas, nas comunidades indígenas e na resistência dos que acreditam que a terra é um bem comum, não mercadoria. Ele permanece presente nas camadas mais necessitadas, onde cada ato de resistência contra o capital representa um ato de memória e luta. A CPT reafirma que os povos do campo são “Presença, Resistência e Profecia”, e, assim como as sandálias de Josimo, sua história continua a caminhar, desafiando o mundo atual e suas injustiças.
