Um Arraial Pensado para a Inclusão
O brilho no olhar das mães, avós e familiares falava mais alto do que qualquer palavra. Em um espaço cuidadosamente preparado, algumas crianças observavam o ambiente à distância, enquanto outras usavam abafadores de ruído, seguravam firme as mãos dos pais e tentavam compreender aquele cenário vibrante de cores, músicas e movimentos típicos do período junino. Aos poucos, com passos lentos, sorrisos tímidos, tentativas de dança e simplesmente permanecendo ali, essas crianças celebravam pequenas, porém significativas, conquistas.
Para muitas famílias atípicas, as festas juninas tradicionais podem ser um desafio. O barulho intenso, a aglomeração e os múltiplos estímulos sensoriais frequentemente afastam crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) dessas ocasiões. No entanto, na última sexta-feira (26), em São Luís, um arraial especialmente organizado para elas mostrou que a inclusão pode acontecer ao som do bumba meu boi, do cacuriá e das brincadeiras típicas do São João. A iniciativa foi realizada na Clínica de Medicina Preventiva da Hapvida, no bairro da Areinha.
Histórias de Superação e Inclusão
Entre os presentes, estava Débora Brandão, mãe de Antônio Manuel Brandão, de 5 anos, diagnosticado com TEA ainda no primeiro ano de vida. Antônio é acompanhado desde cedo, e para Débora, vê-lo mais participativo e atento é fruto de uma trajetória de dedicação diária.
“Hoje, graças a Deus, meu filho tem mais qualidade de vida. Com um ano, ele começou a falar, mas depois houve uma regressão. Com a terapia aqui na clínica, muitas coisas mudaram. Hoje, ele está muito mais ativo, interage mais e presta mais atenção ao que acontece ao redor”, contou a mãe.
Para Débora, a emoção ia além de ver o filho brincar: “Para a gente, que é mãe atípica, é uma alegria saber que nossos filhos estão incluídos na sociedade. É muito bom perceber essa preocupação em integrar as crianças com o mundo lá fora, trazendo esse mundo para dentro da nossa realidade”.
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Fonte: daquidemanaus.com.br
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Fonte: atividadenews.com.br
A avó de Noah Maia, de 4 anos, Eliane Maia, também acompanhava o neto com orgulho. Ela relembrou as dificuldades anteriores para frequentar espaços com outras crianças e destacou os avanços recentes decorrentes do tratamento. “Meu neto tinha dificuldade para conviver com outras crianças e para ir a lugares diferentes. Hoje, ele já pula, sorri e abraça, coisas que antes não fazia. Fiquei emocionada”, relatou.
Cultura e Inclusão Caminhando Juntas
Com o tema “Cultura também é inclusão”, o arraial da Hapvida contou com a participação de crianças com TEA, familiares, terapeutas e grupos culturais locais, como Boi da Madre Deus, Cacuriá Assa Cana, Cacuriá do Basson e Boi Pirilampo. A programação incluiu apresentações culturais, brincadeiras, lanche coletivo e momentos de convivência adaptados para garantir o conforto e o acolhimento das crianças.
Ediel Oliveira, coordenador administrativo de TEA na Hapvida, explicou que o objetivo foi proporcionar às crianças um contato com a cultura maranhense em um ambiente familiar e acolhedor. “Muitas mães têm rotina intensa cuidando dos filhos, acompanhando terapias e o desenvolvimento. Trouxemos esse momento para que as crianças conhecessem a cultura local e se divertissem juntas”, afirmou.
Para as profissionais que acompanham essas crianças, o valor do evento ultrapassa a celebração. A psicóloga Gabriele Conduru ressaltou que atividades como essa ajudam as crianças a colocar em prática habilidades trabalhadas nas terapias, como a interação social, adaptação a novos ambientes e participação em grupo.
“Tivemos o exemplo de uma criança que chegou com abafadores e demonstrou resistência no começo. Depois, começou a participar e interagir muito mais. É importante inserir a criança nesses contextos, sempre respeitando seu tempo e suas necessidades”, destacou.
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Fonte: decaruaru.com.br
Desafios e Cuidados para a Inclusão
Outra psicóloga envolvida, Karolayne Souza, reforçou que o medo das famílias é compreensível, especialmente diante da sensibilidade auditiva, dificuldade de interação ou receio de crises em ambientes agitados. Mesmo assim, ela destaca a importância de oferecer oportunidades para que a criança experimente o mundo com segurança.
“Se não tentarmos, como saberemos se a criança pode participar? Muitas vezes, ela fica excluída. Aqui, buscamos que as crianças participassem, dançassem, tocassem matraca, brincassem e fizessem parte do espaço”, explicou.
A especialista também orienta que a inclusão deve acontecer com planejamento e segurança. Para famílias que desejam levar crianças com TEA a festas juninas ou eventos culturais, recomenda observar os limites da criança, usar abafadores de ruído quando necessário, escolher horários mais tranquilos, apresentar o ambiente de forma gradual e ter um local calmo para recuar caso haja sinais de desconforto.
“Quando família, profissionais e sociedade caminham juntos, a inclusão deixa de ser um conceito abstrato e se torna uma prática concreta”, concluiu Karolayne Souza.
