Uma Conexão Cultural pela Justiça Climática
No dia 3 de outubro, mestres e mestras da capoeira de diversas regiões do Brasil se reuniram para a 1ª Pré-Teia Nacional da Capoeira, um evento realizado de forma online. Com uma duração de três horas, a transmissão ocorreu no canal do YouTube do Pontão de Cultura Ubuntu. O encontro tinha como objetivo preparar os participantes para a 6ª Teia Nacional – Pontos de Cultura pela Justiça Climática, marcada para acontecer em Aracruz, Espírito Santo.
O evento abordou temas cruciais como a luta pela justiça climática e o combate ao racismo ambiental, ressaltando a contribuição significativa dos pontos de cultura da capoeira em diferentes territórios do país. O anfitrião Luís Cláudio de Oliveira, coordenador-geral do Pontão, liderou as discussões, que também contaram com a presença de João Pontes e Tião Soares, representantes do Ministério da Cultura (MinC).
Luiz Renato Vieira, sociólogo e mestre do Grupo Beribazu, foi um dos convidados a compartilhar suas reflexões sobre capoeira e políticas públicas, um assunto que estuda desde os anos 80. Ele destacou: “Felizmente, nós vivemos um ciclo democrático que se preocupa com a participação popular na consolidação das políticas públicas que já haviam sido construídas anteriormente e que estão ressurgindo com a força da mobilização popular.”
Retomada do Grupo de Trabalho
Tião Soares, ao iniciar o encontro, expressou sua satisfação em discutir a retomada do Grupo de Trabalho (GT) da Capoeira na Comissão Nacional dos Pontos de Cultura (CNPdC). Ele mencionou a inclusão do GT na reestruturação do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC), ressaltando que, embora ainda não seja uma conquista definitiva, representa um primeiro passo essencial. “É fruto da mobilização de pessoas que lutam para que a capoeira e outras culturas tradicionais sejam reconhecidas nas políticas públicas,” celebrou.
Soares enfatizou que a capoeira transcende a prática corporal. “Ela é memória histórica, resistência, linguagem musical, ética comunitária e um método pedagógico. A transmissão do conhecimento acontece em rodas, terreiros e pontos de cultura, onde se aprende história, cidadania e afetos de forma integrada com a educação e a saúde.” Ele reforçou a necessidade de uma mobilização contínua para fortalecer as redes culturais e garantir que mestres e mestras tenham voz nas decisões e nas políticas públicas que envolvem sua arte.
Papel Estratégico da Capoeira na Cultura Brasileira
João Pontes, por sua vez, saudou a realização da Pré-Teia, sublinhando que a capoeira desempenha um papel estratégico na Política Nacional Cultura Viva. Ele recordou que, no início do governo de Luiz Inácio Lula da Silva em 2003, mestres de capoeira tiveram um papel ativo na formulação de políticas que atendiam às demandas das culturas tradicionais. “Um dos primeiros editais da Cultura Viva foi direcionado à capoeira da Bahia,” revelou.
Ele observou que a capoeira é um dos grupos culturais mais expressivos e representativos do Brasil. “Onde quer que a gente vá, sempre há um mestre de capoeira.” Além disso, fez questão de mencionar a atuação internacional da capoeira, que se apresenta com corpo, técnica, música e cultura alimentar em muitos países.
Avanços e Desafios em Políticas Culturais
João também destacou a importância das Teias e Fóruns Estaduais de Pontos de Cultura realizados em todo o Brasil, que resultaram na eleição de 30 delegados por estado para a 6ª Teia Nacional. Para ele, este é um momento crucial para avaliar e projetar o futuro das políticas culturais, especialmente sob o governo atual. “A Bolsa Cultura Viva para Mestras e Mestres é um avanço significativo,” afirmou, ressaltando a importância do compartilhamento de saberes e da valorização da ancestralidade.
Entretanto, ele ainda vê desafios a serem superados, como repensar a participação popular além dos editais, que muitas vezes não contemplam as necessidades dos saberes populares.
Acessibilidade Cultural e Racismo Ambiental
Durante o evento, Dilma Negreiros, presidente do Pontão de Cultura CIEMH2 e integrante da Comissão Nacional de Pontos de Cultura, falou sobre a importância da acessibilidade cultural e do trabalho desenvolvido por pontões como o Ubuntu. “Muitos mestres e mestras não passaram pela academia, mas têm conhecimentos valiosos que precisam ser transmitidos,” observou, enfatizando a importância de ter essas vozes nas discussões de políticas públicas.
Por sua vez, a professora Silvany Euclênio, coordenadora do Pontão de Cultura Ancestralidade Africana no Brasil, abordou a questão do racismo ambiental, que se insere nas discussões da 6ª Teia Nacional. “No Brasil, isso é visível em territórios quilombolas e em comunidades urbanas, onde a ausência de políticas públicas resulta em graves impactos sociais e ambientais,” disse.
Silvany destacou a capoeira como um espaço inclusivo, que reúne pessoas de diferentes origens étnicas e idades. “A capoeira é uma reinvenção da vida em contextos de violência e pode ter um papel importante na questão climática e ambiental,” concluiu, reforçando a relevância do encontro em promover discussões sobre a cultura e os desafios enfrentados pelas comunidades.
