Os Efeitos do Conflito no agronegócio brasileiro
O agravamento das tensões no Irã traz impactos diretos e preocupantes para o agronegócio no Brasil. O fechamento do Estreito de Ormuz, uma rota vital para o transporte de petróleo e insumos agrícolas, expõe a fragilidade do setor. Embora o Brasil se destaque como um dos maiores produtores de alimentos do mundo, o país depende da importação de cerca de 80% dos fertilizantes utilizados em suas lavouras. Essa situação já está refletindo em um aumento significativo nos custos de produção, resultando em preocupações sobre a elevação do preço da cesta básica para os consumidores.
A dependência externa em relação aos fertilizantes é ainda mais pronunciada devido às características do solo brasileiro, que, especialmente no Cerrado, apresenta uma carência natural de nutrientes, exigindo constantes correções químicas. De acordo com dados recentes, o Brasil importa 30% do seu potássio do Canadá e 28% da Rússia. O fósforo, por sua vez, provém em sua maior parte do Marrocos (25%) e da Rússia (25%). Já os fertilizantes nitrogenados, essenciais para o crescimento das plantas, têm como principais fontes a Rússia (30%), China (25%) e o próprio Irã (25%).
Crise Logística e Aumento nos Preços Globais
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A interrupção nas exportações do Golfo Pérsico está provocando uma desordem significativa no mercado internacional de fertilizantes. Emmanuel Pessoa, advogado e especialista em direito econômico internacional, aponta que o Brasil enfrenta a concorrência de grandes compradores, como Índia, China e nações europeias, na busca por insumos. Ele sublinha que os mercados alternativos, como Canadá, Rússia e Egito, não têm capacidade produtiva para atender a demanda global de forma rápida, resultando em uma disparada nos preços. Apenas nos últimos dois meses, a ureia teve um aumento de 30% em seu valor.
O agronegócio brasileiro, que é o quarto maior consumidor de fertilizantes no mundo, investiu cerca de R$ 125 bilhões no último ano para importar 45 milhões de toneladas de adubos. Frente a esse cenário de conflito, Luiz Pedro Bier, vice-presidente da Aprosoja MT, afirma que os produtores estão adotando uma gestão mais racional dos insumos, aproveitando os nutrientes já presentes no solo, resultado das aplicações anteriores. No entanto, Bier alerta para os limites dessa estratégia, pois a exaustão do solo pode comprometer as colheitas futuras.
Implicações na Produtividade e na Inflação dos Alimentos
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A relevância da adubação na balança comercial brasileira se reflete nos dados de produtividade do setor. Desde a década de 1990, a adoção de tecnologias e fertilizantes impulsionou a produção de soja, que passou de 40 para até 100 sacas por hectare. No que diz respeito ao milho, o rendimento praticamente dobrou, saltando de 60 para 120 sacas. Sem o uso adequado de nutrientes, a viabilidade da produção fica comprometida. João de Deus, pesquisador da Embrapa Cerrados, ressalta que experimentos realizados em solos sem adubação resultaram em perda total, inviabilizando até mesmo a colheita.
As consequências econômicas desse impasse produtivo devem se tornar mais evidentes nos próximos meses. O economista da FGV, Daniel Vargas, observa que culturas que exigem adubação imediata, como o milho safrinha e as hortaliças, já estão sob pressão em relação aos custos. Vargas destaca que a inflação de alimentos para o ano de 2026 está sendo determinada agora nas lavouras e deverá ser sentida pelos consumidores a partir do segundo semestre, o que pode gerar uma onda de preocupação entre os brasileiros.
