O cenário crítico dos fertilizantes no Brasil
A recente alta nos preços dos fertilizantes e as novas restrições de exportação impostas por potências como China e Rússia expõem mais uma vez a fragilidade do Brasil em relação a insumos importados. Esse cenário acende um sinal de alerta para os produtores, que enfrentam dificuldades para controlar gastos e, consequentemente, podem ver a inflação de alimentos subir nas próximas safras.
O aumento nos preços, especialmente da ureia, intensificado pelos conflitos no Irã, um dos maiores produtores mundiais, é uma preocupação crescente. Segundo informações da consultoria agro do Itaú BBA, a ureia atingiu o valor de US$ 710 por tonelada no porto brasileiro, um aumento significativo de 50% apenas no último mês. Embora outros fertilizantes também tenham sofrido pressão, a intensidade foi menor. Essa volatilidade se deve, em grande parte, à importância do Oriente Médio e do Norte da África como fornecedores de nitrogenados e rocha fosfática. Os conflitos no Mar Vermelho têm prejudicado o fluxo logístico, provocando atrasos de até 15 dias nas entregas e encarecendo o frete.
Restrições de exportação: os países em foco
Em um movimento estratégico, a Rússia suspendeu temporariamente suas exportações de nitrato de amônio, e a China limitou suas vendas de fertilizantes fosfatados. Essas decisões visam priorizar o abastecimento interno de ambos os países, mas, ao mesmo tempo, resultam em uma redução significativa da oferta global. Vale ressaltar que a Rússia é responsável por cerca de 25,9% dos insumos químicos importados pelo Brasil, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Por outro lado, a China figura como o terceiro maior fornecedor de fertilizantes para o país, com até 40 milhões de toneladas de químicos enfrentando bloqueios ou cotas rigorosas.
Os riscos para a inflação de alimentos
Embora os impactos da redução na oferta global não afete imediatamente o agronegócio brasileiro, uma vez que os fertilizantes para a atual safra já foram adquiridos, o verdadeiro desafio se desenha no horizonte. Caso a situação persista até o segundo semestre, os novos embarques chegarão com preços inflacionados, pressionando ainda mais o setor. Enquanto as exportações russas devem ser liberadas em maio, a retomada das vendas chinesas está prevista apenas para agosto, o que pode criar dificuldades significativas no início do plantio da safra 2026/27.
Analistas da Cogo Inteligência em Agronegócio ressaltam que a volatilidade cambial e as altas no frete global também estão entre os fatores que devem impactar as próximas safras. O aumento dos preços do petróleo e a necessidade de redirecionar rotas devido ao fechamento do Estreito de Ormuz também têm elevado os custos do transporte marítimo. Notas recentes do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) destacam um “elevadíssimo risco” para o setor de fertilizantes no Brasil, com a possibilidade de aumento de preços internos e até desabastecimento na próxima safra.
Estagnação do Plano Nacional de Fertilizantes e suas consequências
A persistência da dependência brasileira em relação aos fertilizantes importados revela a estagnação do país em aumentar sua produção interna. Com o objetivo de diminuir essa dependência, o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) tem uma meta ambiciosa: reduzir a atual dependência de 85% para entre 45% e 50% até 2050. Contudo, os primeiros anos de sua implementação não mostraram resultados concretos.
A senadora Tereza Cristina (PL-SP), responsável pelo lançamento do PNF durante sua gestão no Mapa, expressou sua frustração: “Faltou vontade política. Tivemos crises anteriores, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, e não aprendemos com isso. O que foi feito desde então? Nada”, afirmou à Gazeta do Povo. A parlamentar destaca que o Brasil está repetindo um cenário de crise semelhante ao de 2022, agora com riscos de aumento de preços e problemas nas rotas de transporte.
Desafios para a produção nacional de fertilizantes
O desestímulo à produção nacional de fertilizantes não é apenas uma questão de falta de matéria-prima, mas sim de entraves estruturais que dificultam a expansão da produção interna. No caso dos nitrogenados, o custo elevado do gás natural representa um grande impedimento. Enquanto indústrias nos EUA e na Rússia pagam entre US$ 2 e US$ 4 por milhão de BTUs, no Brasil essa cifra pode chegar a até US$ 14. Além disso, projetos de potássio enfrentam obstáculos regulatórios e disputas legais, especialmente em regiões sensíveis como a bacia do Rio Amazonas.
Outro fator que distorce a competitividade nacional é a chamada “tarifa inversa”, que torna o fertilizante fabricado no Brasil mais caro do que o importado, em razão da carga tributária elevada sobre a cadeia produtiva. Segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), esse cenário desestimula novos investimentos e perpetua a dependência externa do Brasil no setor de fertilizantes.
