Maria Alice: A Jornada de Superação
No Dia Internacional da Mulher, celebrado no último domingo (8), o g1 destaca a inspiradora trajetória de Maria Alice, uma educadora que transformou sua vida e a de muitos outros por meio da alfabetização. Com mais de 30 anos de dedicação ao ensino, ela acredita que aprender a ler e escrever é mais do que um simples ato; é uma forma de conquistar autonomia e independência.
“Só quem não sabe ler entende o valor de escrever o próprio nome, de pegar um ônibus sem depender de ninguém. A educação transforma a vida de uma pessoa”, afirma Maria Alice, que tem se dedicado a incluir novos aprendizes no mundo das letras.
Uma Infância Dura e o Início do Trabalho
A trajetória de Maria Alice começou cedo. Desde os 9 anos, ela trabalhava para ajudar a família. Nascida em uma fazenda na região de São Carlos, o primeiro emprego foi como babá. Com o tempo, a realidade tornaria-se ainda mais desafiadora: aos 12 anos, começou a trabalhar na Usina da Serra, em Ibaté (SP), cortando cana.
Crescendo em um lar de trabalhadores rurais, onde o pai era cortador de cana e a mãe colhedora de laranja, Maria enfrentou a dura realidade de um contexto sem muitas oportunidades. Embora seus pais não soubessem ler ou escrever, sempre a incentivaram a buscar a educação. “Eu queria ajudar em casa e ter autonomia”, relembra.
A jornada de trabalho era extenuante; Maria passava o dia sob o sol e, à noite, viajava horas de caminhão até a escola. Com o pagamento baseado na quantidade de cana cortada, o esforço refletia diretamente no salário. Embora não tenha sido coroada como a “rainha do facão”, Maria foi eleita princesa do trabalhador em São Carlos, enquanto trabalhava como diarista e colaboradora do sindicato dos metalúrgicos. “Eu sempre buscava possibilidades para sair do corte de cana”, conta.
Retorno aos Estudos e a Educação de Jovens e Adultos
Durante o estágio em que alfabetizava alunos da EJA, Maria teve um importante choque de realidade ao perceber que muitos de seus alunos viviam experiências semelhantes às suas. “Ali eu entendi que não era só a minha história. Eu precisava estudar para contribuir com essas pessoas e com a sociedade”, diz Maria.
A partir de 1996, Maria dedicou-se à educação de jovens e adultos e integrou o Movimento de Alfabetização (MOVA) em São Carlos. Em 2023, foi convidada a assumir a gestão da EJA na Secretaria Municipal de Educação, onde atualmente atua como professora de educação infantil e gestora da modalidade.
Empoderamento e Educação como Direitos
Maria Alice faz questão de compartilhar sua história ao visitar os núcleos de alfabetização. “Muitos dizem: ‘Se você conseguiu, eu também vou conseguir’”, relata. Para muitos alunos, aprender a ler e escrever é um passo fundamental rumo à autonomia, permitindo reconhecer o próprio nome e se orientar na cidade sem depender de outros.
Ela enfatiza: “É um direito seu. É importante que você esteja no espaço escolar, independentemente da sua idade.”
Desafios e a Força da Resistência
Reconhecendo os desafios enfrentados ao longo de sua trajetória, Maria, mulher negra e de origem rural, discute as questões do preconceito estrutural e das desigualdades sociais. Para ela, a resistência e a luta pelo sonho são essenciais para a vida.
“A vida só faz sentido quando podemos ser luz na vida de outras pessoas. E isso é o que busco fazer todos os dias, seja na sala de aula ou na gestão pública”, afirma. Segundo ela, sempre haverá obstáculos, mas estes não podem ser um motivo para desistir dos sonhos. “As mulheres já provaram que são guerreiras, e seguimos resistindo, mesmo diante da violência que ainda enfrentamos. Nossa força está dentro de cada uma de nós, e a palavra de hoje é resistência”, conclui.
